terça-feira, 9 de abril de 2013

Alô, Dolly!


Dificuldades em encontrar a sua cara metade? Não tem mais esperanças em achar alguém para juntar as escovas de dente? Saiba que a solução pode estar mais próxima do que se imagina. Já pensou em recorrer à ajuda de uma “consultora de maridos/esposas”, ou – num português mais direto – a uma casamenteira? Que tal chamar Dolly? Esse é o foco da peça Alô, Dolly!, espetáculo baseado no musical que estreou na Broadway em 1964 e, dois anos depois, veio a ser montado no Brasil por Bibi Ferreira.

Agora a história se passa no palco do Teatro Bradesco. Desta vez é Marília Pêra quem vive a protagonista Dolly, uma casamenteira muito conhecida pelos habitantes do vilarejo onde mora, por eles consultarem os serviços dela em busca de seus amores.  Mas até o coração de Dolly não escapa das flechas do amor e ela acaba se encantando por Horácio Vandergelder (Miguel Falabella), um comerciante conservador e um pouco rabugento, que está em busca de uma esposa.

Dolly então arruma um encontro para Vandergelder com uma mulher em Nova York, mas na verdade a casamenteira quer mesmo é conquistar o coração do comerciante. Enquanto isso a filha dele diz estar apaixonada por um simples e pobre rapaz da região, algo que não agrada nada a seu pai devido, principalmente, às condições sociais do garoto.

E Dolly mais uma vez intervém com seu feeling romântico para que a filha de Vandergelder fique com o seu amado, sugerindo que o casal participe de um concurso de dança em um chiquérrimo restaurante em Nova York, para onde ela pretende mandar o amigo comerciante. O intuito é que o casal ganhe o concurso para impressionar Vandergelder e assim ele permita o casamento de sua herdeira com o amor dela.

Os empregados do comerciante, que são altamente explorados por ele e quase nunca tiram férias, elaboram um plano a fim de darem “uma escapadinha” para Nova York enquanto o patrão está fora da loja, com o objetivo de conhecerem a encantadora cidade e seus diversos atrativos, que para eles têm um significado muito grande, já que a vida de cada um praticamente se resume a cuidar da loja e ambos mal conhecem o que há além da pequena cidade onde moram. Muita confusão acontece a partir de então, quando todos partem à Nova York e ocorrem diversos encontros inesperados.

Esta versão brasileira de Alô, Dolly! é diversão garantida para a plateia, que se encanta com os personagens desde o começo do espetáculo criando uma grande empatia, a qual cresce a medida que o musical se desenrola. Não há como não destacar a esplendorosa atuação da atriz Marília Pêra que, em plenos 70 anos de idade, confere uma vivacidade e uma energia ao seu personagem, dotada de tamanho fôlego a dar inveja em muitas atrizes bem mais novas do que ela.

Marília trabalha em Dolly um humor muito bem dosado, desprovido de exageros desnecessários e assim consegue transcender perfeitamente entre o real e o imaginário, aumentando a crença do público no que se passa no palco – afinal a emoção cênica é construída na potencialidade de cada ator que consegue fazer com que a plateia se esqueça de estar assistindo a uma representação e acredite na história encenada, algo que depende exclusivamente do elenco e da forma como este é conduzido pelo diretor, já que neste quesito o aspecto cenográfico é mero complemento, pois um ator sensacional, em um palco desnudado de recursos, se basta para cativar o público.

Outra atuação magnífica é do ator Miguel Falabella – que também é o diretor do espetáculo e fez a adaptação da obra para esta versão brasileira. Junto com Marília Pêra os talentos de ambos se complementam e enriquecem demasiadamente o contexto cênico, que ganha um aumento deste humor gostoso e leve trabalhado na peça.

Um dos pontos fortes deste musical, a meu ver, está na correta e devida inserção das canções para “musicalizar” e “ilustrar” as cenas, já que a peça é composta por muitas falas e alguns diálogos possuem tamanha duração que até nos esquecemos, instantaneamente, de que se trata de um musical.


Todavia, tal característica apenas contribui para que esta produção se aproxime ainda mais da perfeição em sua totalidade, pois são diversos os espetáculos musicais cujos produtores, para fazer jus ao gênero, inserem músicas do começo ao fim, não valorizam as falas, e acabam alterando o contexto da trama original e tornando-a cansativa. Afinal não é porque se trata de um musical que o ator deve entrar e sair de cena cantando o tempo todo e Alô, Dolly! acerta em cheio neste quesito, além de arrasar em elenco, produção e cenário.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 24 de março de 2013

A Busca



Um pai entra em desespero quando seu filho anuncia que passará o fim de semana na casa do amigo e simplesmente desaparece sem dar sinal de vida. Este é o cenário de A Busca, filme dirigido pelo estreante Luciano Moura.

No enredo Wagner Moura é Theo, um médico que vive discutindo com sua esposa (papel de Mariana Lima), com quem está em vias de separação. O casal tem um filho de 15 anos (interpretado por Brás Moreau Antunes). Num certo dia, Theo trava uma ferrenha discussão com o filho – em razão de uma cadeira dada ao menino pelo avô, pai do médico – e se exalta explosivamente com o garoto.

O conflito entre os dois detona o estopim para uma decisão do menino: ao sair de casa dizendo à mãe que passaria o final de semana na casa de um amigo, na verdade ele preparou a própria fuga.

Após constatarem que ele havia mentido e estava desaparecido, Theo e sua esposa entram em total desespero. Enquanto a mãe do menino fica em casa, por recomendação do próprio marido, para o caso de receber ligações que possam avisar sobre o paradeiro do jovem sumido, Theo sai numa busca desenfreada na esperança de encontrar o rapaz.

A partir de então ele vai encontrando uma série de pistas sobre os lugares em que o menino esteve. Com um tema interessante e que poderia ser bem mais explorado – inclusive para trabalhar melhor o raciocínio dos espectadores ao proporcionar um verdadeiro quebra-cabeça na elaboração de indícios que revelem progressivamente o paradeiro do filho de Theo – a forma como o protagonista é levado pelas circunstâncias a tentar achar o seu filho se dá de modo bastante previsível e linear, sem qualquer variação que possa gerar na plateia um tom de suspense, gênero muito bem-vindo e praticamente requerido neste tipo de trama.

O ator Wagner Moura, como de praxe, possui uma excelente atuação e consegue passar mais do que a composição de seu personagem requer no roteiro. No entanto, quem acompanha sua trajetória cinematográfica pode observar que ele já esteve ainda mais brilhante em produções como O Homem do Futuro, Vips e, é claro, o genial Tropa de Elite 2, que bateu recordes de bilheteria nacional. Todavia, o próprio contexto ameno do roteiro pode ter contribuído para a atuação mais comedida de Moura em A Busca.

Outro ponto de destaque é o fato de tanto ele quanto a Mariana Lima representarem de modo muito próximo à realidade o afloramento das emoções que se tornam mais intensas à medida que seus respectivos personagens vão permanecendo mais tempo sem saber notícias do filho.

O longa-metragem tem duração de 96 minutos e conta com a participação especial do ator Lima Duarte. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 9 de março de 2013

Indomável Sonhadora



Uma história emotiva, forte e cheia de superações aos obstáculos que a vida pode nos proporcionar. Este é o cenário que compõe o drama Indomável Sonhadora. O filme é uma estreia do norte-americano Benh Zeitlin como diretor cinematográfico.

O roteiro se baseia nas aventuras dramáticas da personagem Hushpuppy, uma garotinha (interpretada pela atriz Quvenzhané Wallis, hoje com nove anos e que tinha seis à época das filmagens) que vive com o seu pai (Dwight Henry) em um alagado localizado no extremo sul da Louisiana, região totalmente isolada da parte civilizada dos EUA e uma das mais miseráveis do país. Ela vive conversando com os animais e sempre procura enxergar positivismo e beleza onde não há. A menina encara tudo transitando entre um mundo de fantasia e realidade, já que ela vive criando em sua mente imagens fictícias associadas ao que ela vê na vida real. 

Essa pequena parte da Lousiana é habitada por algumas famílias que residem em simples casas de madeira e se encontram em situação de extrema miséria, se sustentando a base de animais que elas matam para se alimentar. As condições de vida são semelhantes àquelas enfrentadas pelo homem na Idade Pedra, quando ele precisava sair à caça para garantir o seu alimento. Uma realidade que infelizmente ainda está perpetrada em diversos cantos do mundo real.

Os vizinhos da pequena Hushpuppy, sem terem muito o que fazer na região, ocupam a maior parte do tempo “enchendo a cara” com bebidas alcoólicas para se sentirem um pouco mais felizes e tentarem imergir em um mundo de ficção. Todavia, eles pretendem jamais abandonar suas moradias e deixam claro suas aversões à rotina dos cidadãos do mundo dito civilizado que, de acordo com a mentalidade deles, não passam de escravos do sistema.

O pai da protagonista da história é quem mais ressalta sua paixão pela região e seus modos de vida “selvagens”, ensinando a filha a se defender e garantir seu sustento, semelhante à forma como os animais ensinam seus filhotes a sobreviverem na selva.

Porém, os pobres habitantes de Louisiana não contavam com uma devastadora tempestade que destrói quase todas as casas do alagado, deixando poucos sobreviventes. Após resistir à tormenta, Hushpuppy e seu pai são obrigados a abandona o lar, ou melhor, os destroços que restaram dele, em busca de outro abrigo. A partir de então a pequena garotinha enfrenta uma série de aventuras e passa por novos intensos momentos – principalmente em relação ao seu pai – que exigirão dela muita garra e força, como ele mesmo sempre a ensinou, para encarar os obstáculos da vida, por pior que sejam, sem derramar uma lágrima de tristeza sequer.

Além de um diretor novato – que por sinal faz um excelente trabalho de direção e opta por planos de filmagens fechados, trabalhando com a câmera em diversos travellings (movimento de câmera que acompanha o deslocamento dos personagens e/ou o foco principal da cena) proporcionando uma grande aproximação da plateia com o drama vivido pelos personagens – o elenco conduz apropriadamente toda a trama, mesmo sendo constituído por atores novatos em experiência cênica.

Os destaques vão para o ator Henry e a pequena Quvenzhané, que surpreendentemente apresenta um crescimento explosivo em cena, à medida que ela imerge gradativamente em seu papel. Não hã como não se comover com a força que a personagem da garota trabalha dentro de si, tentando enfrentar as dramaticidades de sua vida sem chorar, o que se revela uma tarefa bastante difícil, principalmente para uma criança. Como muitos bons atores, que já têm anos de experiência no mercado, a garota soube internalizar sentimentos e controlar emoções, retratando brilhantemente o perfil psicológico da Hushpuppy. Não é à toa que ela foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz e, mesmo não tendo levado a estatueta, algo raro de acontecer com alguém da idade dela, a indicação foi merecida.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 3 de março de 2013

O Lado Bom da Vida



Imagine ser chifrado pela mulher, perder a casa e o emprego logo em seguida, passar oito meses num sanatório – após ser acometido por um surto de transtorno bipolar em razão de tantos conflitos – e, depois, ter como único destino a casa dos pais, que será o ponto de partida para a construção de uma nova vida. Todos esses males recaem intensamente sobre o personagem Pat (Bradley Cooper), protagonista de O Lado Bom da Vida.

Extraído do livro homônimo de Matthew Quick, esta comédia dramática conta a história de um professor chamado Pat que, após flagrar a mulher fazendo amor com o amante debaixo do chuveiro – e ainda ao som da música tocada no casamento dela com Pat – entra em transe psicótico, perde o emprego e acaba indo para o sanatório sendo diagnosticado como bipolar. Após oito meses internado, ele vai morar com seus pais (papeis de Robert de Niro e Jacki Weaver).

Ainda obcecado pela esposa, logo nos primeiros dias após sua saída do hospital psiquiátrico, Pat passa madrugadas acordado chamando pela mulher dele, a quem ele demonstra amar muito, e em busca de vídeos de casamento deles. Para piorar a situação, ele foi proibido pelo juiz de se aproximar dela.

Enquanto isso, o professor tenta se esquivar de seu pai, quando este está sempre disposto a passar horas com o filho conversando sobre esportes, numa tentativa desesperada de se aproximar dele. Apesar disso não ficar tão perceptível de forma explícita, face à sutileza nas ações do pai, é possível observar um sentimento interior muito latente explodindo internamente em seu coração, desejo esse que o filho passe mais tempo com ele.

Os fortes transtornos bipolares do professor começam a se atenuar a partir do momento em que ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma jovem viúva que, assim como Pat, fica em estado psicótico abalado também por causa de uma perda – no caso dela, a do marido – e, semelhante ao protagonista da história, não tem equilíbrio suficiente para reprimir seus impulsos e desejos, além de falar o que pensa para as pessoas. A garota já estava mal falada na região em que morava por ter feito sexo com várias pessoas após a morte do esposo.

No entanto, a situação também parece mudar para ela quando conhece Pat. A princípio, surge uma grande amizade entre os dois e a aproximação gradativa deles parece gerar uma ajuda mútua para que cada um aprenda a lidar com seus respectivos transtornos.

Sem perceber, Pat – que mesmo após a saída do sanatório pareceu continuar a viver em um mundo recluso da sociedade, totalmente obcecado por sua mulher, de modo a ficar imerso apenas em pensamentos que a envolvessem – começa a redescobrir, ao lado de Tiffany, os prazeres da vida em simples atividades do dia a dia, como andar pelas ruas, rir sem motivo e dançar.

Um sentimento muito mais intenso que a amizade começa a aflorar entre os dois, principalmente por parte da viúva, que deixa claro, pelo seu comportamento, o interesse em Pat. Já este ainda continua a falar da esposa, mas fica perceptível o carinho tão grande que ele tem pela nova amiga, o qual vai crescendo sem que ele mesmo perceba.

Com um contexto forte e dotado de alguns diálogos inteligentes e reflexivos, a história de O Lado Bom da Vida é fundamentada em como superar os problemas do dia a dia que muitas vezes parecem não ter solução, dada a gravidade de determinadas situações. Por tratar um tema tão enriquecedor – que certamente leva e levará muitos espectadores a refletirem um pouco sobre como aprender a resgatar forças inimagináveis para superar os grandes obstáculos existenciais e a como se levantar do chão, com força muito maior para combater as outras quedas que ainda estarão por vir – o diretor da trama, David O. Russell, poderia ter explorado e trabalhado melhor o assunto na interpretação e incorporação dos personagens pelo elenco.

Os atores-destaque do filme, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, estão bem em seus papéis e conseguem entrar no perfil de seus personagens, passando as respectivas mensagens de cada um, porém ambos, assim como os coadjuvantes, parecem apenas cumprir a função determinada no roteiro sem arriscar uma ousadia cênica, que poderia ser muito bem-vinda dada a caracterização da história.

Mesmo assim, as duas horas de trama acabam se tornando envolventes e criando até mesmo certa expectativa na plateia para saber qual será o futuro de Pat e Tiffanny. A produção foi indicada a oito estatuetas do Oscar e levou apenas o prêmio de Melhor Atriz para Jennifer Lawrence, de 22 anos – premiação cuja escolha talvez tenha ocorrido de modo inusitado pelos jurados da Academia. Para tirar as próprias conclusões, vale assistir o filme e descobrir tudo que envolve o lado bom da vida.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Argo encerra noite do Oscar 2013 com estatueta de Melhor Filme


Mesmo com contexto e filmagens enriquecedores, Argo não foi melhor que outros indicados



Com danças, cantorias e piadas sem graça de sempre (que insistem em marcar presença nas cerimônias do Oscar), a maior festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deste ano não teve muitas surpresas, mas, diferentemente das ocasiões anteriores, uma premiação bem dividida entre os filmes indicados, dada a excelência de alguns que contribuiu para uma disputa bastante acirrada.

Um dos momentos surpreendentes talvez tenha ocorrido no desfecho da cerimônia quando ninguém menos do que a primeira-dama norte-americana Michelle Obama anunciou, direto da Casa Branca, o vencedor do Oscar de Melhor Filme 2013: Argo, produção que já vinha sendo cotada para vencer a categoria, levando-se em conta o histórico de premiações já conquistadas pela trama em 2013, as quais incluem Globo de Ouro por Melhor Filme e Direção (Ben Affleck) e o prêmio de Melhor Elenco pelo Sindicato dos Atores. A produção ainda levou as estatuetas, com toda a justiça, de Melhor Montagem e Roteiro Adaptado.

Mais até do que um meio de indução da indústria cinematográfica para a venda de seus produtos em todo o planeta, a escolha de Argo e sua divulgação pela Senhora Obama deve provocar no meio cinematográfico uma reflexão sobre a politização - ou o uso político - da premiação, não apenas como recurso para minorar a imagem tirânica dos EUA disseminada no Oriente Médio, principalmente em países como o Irã, Paquistão ou Iraque, como recurso para aumentar a popularidade governamental no âmbito interno.

Apesar dessa pretensa jogada, e da intensa repercussão nos países islâmicos, há que se ressaltar a forma agressiva como essa divulgação foi recebida por lá: só para citar um exemplo, a agência internacional islâmica FAR editou as imagens acrescentando mangas e tecido ao decote generoso da primeira dama norte-americana.

E por falar em supervalorização norte-americana, o filme líder em indicações (12), Lincoln, de Steven Spielberg, ganhou apenas duas estatuetas por Melhor Direção de Arte e Melhor Ator para Daniel Day-Lewis. Esta última premiação foi mais do que justa e não tinha como ser diferente, já que o ator foi espetacular na incorporação de Lincoln, um personagem tão grandioso e, ao mesmo tempo tão sutil, e que era pressionado pelo próprio cargo a interiorizar suas emoções.

Mas as láureas para Spielberg pararam por aí, já que, mesmo com todo seu esplêndido trabalho de direção, que parecia transportar a plateia do cinema para o contexto histórico onde se passa a trama, o prêmio de Melhor Direção foi para Ang Lee, diretor de As Aventuras de Pi, que a meu ver teve um excelente trabalho artístico, mas sua direção em geral não pode ser definida como a melhor entre os indicados. A produção de Lee ainda levou o Oscar de Melhor Trilha Sonora, Efeitos Visuais e Fotografia. As duas últimas premiações foram sim devidamente merecidas, em virtude do espetáculo de cores e luzes proporcionado aos olhos da plateia.

E, mesmo com a injustiça cometida com o diretor Quentin Tarantino, mestre dos longas de violência moderna, que ficou de fora da disputa à categoria de Melhor Direção – assim como Ben Affleck (Argo) e Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura), também surpreendentemente excluídos da indicação – ele ainda levou a estatueta de Melhor Roteiro Original, com seu filme Django Livre. Nesta mesma produção, há que se destacar o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante para o grandessíssimo Christoph Waltz, mais do que justo, dada sua fantástica interpretação como um sarcástico caçador de recompensas, cujo efeito foi capturar a atenção de praticamente toda a primeira parte da história para si.

Já o tão falado longa Os Miseráveis, que trouxe para os telões a magnífica obra de Victor Hugo na forma de um grandioso musical, ganhou três devidas estatuetas: Melhor Maquiagem, Mixagem de Som – o diretor Tom Hooper fez um trabalho de som  e acertou em cheio ao optar pela gravação das canções ao vivo – e Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway, que estava totalmente imersa em seu papel do começo ao fim da trama, emocionando e envolvendo a plateia.

A Hora Mais Escura, que soube narrar nas devidas proporções como o terrorista Osama Bin Laden foi capturado e morto, levou apenas um Oscar de Melhor Edição de Som junto com o filme 007 – Operação Skyfall em um empate, algo raro de se acontecer nestas cerimônias.

E o prêmio de Melhor Atriz ficou para Jennifer Lawrence, atriz de O Lado Bom da Vida, filme que, apesar do bom contexto, tem um desenrolar simples e desprovido de surpresas, o que não justifica suas indicações - inclusive para Jennifer, que fez uma boa atuação, mas manteve a linearidade sem investir em muitas emoções. A surpresa deve ter sido tamanha que a própria atriz levou um tombo na escada de acesso ao palco, bem na hora de receber a estatueta.

Concluindo, com algumas indicações esperadas e outras não, para mim, a surpresa maior foi assistir a vitória de Argo na categoria Melhor Filme. Contando a história de como seis diplomatas norte-americanos conseguiram escapar do Irã, depois de serem ameaçados pela população local, a produção conduz bem a história, com apropriados planos de filmagem que criam suspense na plateia, mas nada tão espetacular que outros longas como Os Miseráveis e Lincoln não superem.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas



domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Hora Mais Escura



Apagam-se as luzes do cinema, todos se acomodam nas poltronas e o telão começa a exibir apenas sons de pessoas que indicam estar em desespero, sem nenhuma imagem. Trata-se da reprodução da tragédia vivida por muitas vítimas do atentado terrorista realizado, em Nova York, nas Torres Gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, deixando um saldo de quase três mil mortos.

Esta é apenas a abertura de A Hora Mais Escura, produção baseada em fatos reais, que trata de toda a trajetória de uma agente da CIA na incessante busca pela captura e morte do líder do grupo fundamentalista islâmico Al Qaeda, em maio de 2011: Osama Bin Laden.  Na trama Jéssica Chastain é Maya, uma novata agente da CIA extremamente centrada em sua missão de tentar encontrar o esconderijo de Bin Laden que, segundo supõe o serviço de inteligência, se refugiou em algum lugar do Paquistão depois do atentado em Nova York.

Após a abertura do filme passam-se dois anos e a plateia agora é colocada diante de uma cena de tortura, ocorrida no Paquistão, cometida por alguns dos agentes da CIA contra um prisioneiro ligado à Al Qaeda. Enquanto este é torturado e repreendido violentamente, em uma pequena sala, para confessar o que sabe sobre o paradeiro de Bin Laden, Maya apenas observa de longe a cena, aparentando estar convicta de que tal agressão não servirá de nada para arrancar uma palavra sequer da boca do prisioneiro.

A persistência e eficiência da protagonista em concretizar seu objetivo começam a ganhar, gradativamente, um destaque imensurável na trama. Maya passa oito anos de sua vida empenhada em investigações sigilosas e detalhadas que possam levá-la a pistas concretas sobre a localização de Bin Laden. Neste período ela encontra diversos entraves que atordoam cada vez mais sua mente, de modo que, em alguns momentos, ela mesma chega a crer que não conseguirá realizar a missão de encontrar o líder da Al Qaeda e jamais será feita a devida justiça à morte dos quase três mil norte-americanos no atentado às Torres Gêmeas, conforme lhe foi atribuida a autoria.

Uma luz no fim do túnel surge quando ela descobre que um mensageiro de Bin Laden, dado como morto, está vivo e pode ser a “pista-ouro” para que os agentes da CIA cheguem até o líder da Al Qaeda. O espetacular e esplendoroso profissionalismo de Maya cresce explosivamente no momento em que as pistas do paradeiro de Bin Laden levam a uma casa, toda cercada por muros altos. A agente então passa a cobrar persistentemente dos demais agentes, incluindo seus chefes, para que eles tomem uma atitude e possam invadir a fortaleza.

Mas muitos deles relutam em tomar qualquer ação, temendo que Bin Laden não esteja na casa – apesar das provas indicarem imensas chances dele estar lá – e inocentes sejam sacrificados, o que não seria nada bom para a imagem dos EUA, principalmente porque o país estava em ano de eleição e o presidente Obama almejava ser reeleito – o que acabou ocorrendo.

Com quase três horas de duração, a produção pode se mostrar um pouco extensiva no começo – o que é perfeitamente normal, já que se trata de um filme histórico em que o contexto precisa ser devidamente apresentado e explicado para o entendimento da plateia – mas envolve sobremaneira os espectadores conforme a trama se desenrola e os conduz à expectativa de que Maya está prestes a cumprir o objetivo pelo qual lutara por tantos anos.

O desfecho é sensacional! Mesmo já sabendo qual será o destino de Bin Laden, o longa acaba prendendo o fôlego de muitos espectadores, pois os planos cinematográficos – compostos unicamente por planos fechados e movimentos de câmera – nos proporcionam o mesmo ponto de vista da equipe da Marinha Americana, que invadiu a fortaleza para capturar o líder da Al Qaeda, trazendo muito mais realidade para as cenas durante minutos que se parecem horas diante da tensão constante.

O longa foi brilhantemente dirigido por Kathryn Bigelow – primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Direção, em 2010, pela sua produção Guerra ao Terror, que levou mais cinco estatuetas incluindo Melhor Filme, desbancando o favorito da época Avatar, do diretor James Cameron, ex-marido de Kathryn. A diretora de A Hora Mais Escura trabalha a trama desprovida de emoções, narrando a história como ela realmente é, o que acaba se aproximando ainda mais dos fatos verídicos. A frieza dos terroristas em matar não-muçulmanos e ocidentais e a neutralidade presente na face dos agentes da CIA enquanto torturam terroristas, como se estivessem fazendo qualquer outro tipo de trabalho, contribuem para deixar o público ainda mais familiarizado com as realidades apresentadas.

Vale ressaltar que, ao contrário de muitos longas norte-americanos, que retratam grandes feitos cometidos pelos EUA, enaltecendo e enfeitando os atos heroicos destes, muito além do que realmente foram na história real, o filme de Kathryn retrata com realidade a triste violência cometida tanto pelos terroristas quanto pelos agentes da CIA, dispostos a sacrificar os primeiros da forma mais bruta possível.

Uma das cenas mostra uma gravação verídica do próprio presidente Barack Obama, dando uma declaração à mídia sobre a inexistência de atos de tortura pelos agentes da CIA, enquanto alguns destes assistem à entrevista pela TV, direto do Paquistão, com certo ar de surpresa. Não obstante nada seja dito, a mensagem já fica subentendida.

O filme acabou gerando polêmica nos EUA justamente pela forma como a CIA foi retratada, mas o roteirista da trama, Mark Boal, foi atrás de testemunhas da vida real para recriar a história da forma mais fiel possível.

A Hora Mais Escura concorre à cinco estatuetas do Oscar, incluindo Melhor Direção, Filme e Atriz (Jessica Chastain). A produção tem tudo para acirrar ainda mais uma das mais competitivas disputas aos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos últimos anos. A não ser é claro que a filmagem de uma história tão polêmica cause certo “incômodo”  em alguns críticos da Academia, numa cerimônia que ainda é muito “norte-americanizada”. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis



Escrita em 1862 pelo grande poeta, dramaturgo, ensaísta, ativista e artista francês Victor Hugo, uma das mais famosas obras literárias, que se consagrou em diversas partes do mundo, volta aos telões para encantar e emocionar plateias: Os Miseráveis, dirigido por Tom Hooper, o mesmo diretor de O Discurso do Rei (2010), que levou quatro estatuetas do Oscar em 2011, incluindo Melhor Filme e Direção.

Depois de passar por diversas montagens e adaptações nos cinemas e na TV, agora os telões ganham uma versão musical da história de Victor Hugo, que foi encenada neste estilo pela primeira vez, em 1980 no Palais des Sports, em Paris, com direção de Robert Hossein, música de Claude-Michel Schönberg e libreto escrito por Alain Boubil.

A partir de então, essa nova versão – que ganhou adaptações de Schönberg e Boubil –passou por vários lugares, chegando à Broadway em 1987.

A trama se passa na França do século XIX, entre as Batalhas de Waterloo e os motins de 1832, e traz uma mescla de ação, suspense, tensão e – como não poderia faltar nas renomadas obras literárias – uma história de amor repleta de obstáculos que impeça um casal de pombinhos de ficar juntos. Os Miseráveis se desenrola em torno de Jean Valjean (Hugh Jackman), um cidadão francês que permaneceu 19 anos atrás das grades por ter roubado um pão. Ele só consegue escapar dessa quando adquire liberdade condicional e aproveita para fugir de vez, sem que algum inspetor policial o aviste.

Passados alguns anos, Valjean assume outra identidade e, depois de ser salvo por um bispo de quase ir para a prisão novamente, está disposto a fomentar seu instinto caridoso, fazendo apenas o bem e ajudando a quem precisar. Ele agora se torna empresário e prefeito de uma cidade e está disposto a ajudar Fantine (Anne Hathaway) – uma costureira que perde o emprego e, no desespero para conseguir um sustento que a permita criar sua filha Cosete (Isabelle Allen), se torna prostituta e acaba adoecendo gravemente. Após conhecer seu drama, Valjean decide adotar a criança e oferecer todo o suporte necessário a ela.

Todavia, ele não contava com um grande entrave em sua vida: o encontro com o inspetor Javert (Russel Crowe), que o maltratou por muitos anos enquanto Valjean esteve na prisão. Apesar de não reconhecer o ex-prisioneiro nos primeiros instantes em que o vê, conforme a frequência de encontros casuais entre os dois aumenta, a desconfiança do inspetor também se eleva até que, em determinado momento, Javert passa a ter certeza da verdadeira identidade do protagonista da trama.

Jean Valjean decide então fugir com Cosete sem saber que destino tomar. Mais uma vez o público é levado para anos à frente daquele momento e nos deparamos com uma Cosete já crescida (agora interpretada pela Amanda Seyfried) e no auge de sua bela juventude. O amor começa a ganhar ênfase na trama a partir do momento em que a garota cruza com Marius (Eddie Redmayne), um jovem revolucionário que, junto com um grupo de amigos, está disposto a enfrentar a guarda francesa e lutar pelos seus direitos, mesmo com a ínfima chance de vitória para os jovens rebeldes.

Apesar da impecabilidade em sua produção, este é um filme realmente destinado aos verdadeiros amantes de musicais, já que ele é todo cantado e praticamente não contém quase nenhuma fala estrita, ao contrário de outras produções do gênero que utilizam da música como um complemento e aprimoramento do contexto falado apresentado.

Outra questão que pode incomodar alguns é o tempo de duração da trama – quase três horas – que se mostram desnecessárias em razão de algumas cenas extensivas e cansativas. Porém, nem este fator (aliado à má cantoria de Russel Crowe, que definitivamente assusta os ouvidos com o seu conturbado agudo) mostra-se prejudicial para a produção do filme como um todo.

Mesmo não tendo escalado atores profissionais de canto – o diretor diz tê-lo feito propositadamente alegando que a não perfeição tem muito mais proximidade com a realidade – o elenco está incrível, tanto na atuação quanto na interpretação musical.

O destaque da trama vai para a atriz Anne Hathaway, que está excepcional na atuação da personagem Fantine, principalmente quando ela canta, em um dos momentos mais marcantes do longa, a canção I Dreamed a Dream totalmente entregue ao drama da história, que chega a ser difícil não se emocionar.

Os atores Sacha Baron Cohen (que se destacou em Bastardos Inglórios) e Helena Bohnam Carter formam um casal excelente na incorporação de personagens trambiqueiros e vigaristas, que eram responsáveis por cuidar de Cosete enquanto a mãe da menina saia em busca de sustento.

O desfecho do filme também se revela espetacular e arranca lágrimas da plateia. Todo o longa foi praticamente filmado por cenas em plano fechado, a fim de passar o ponto de vista emocional de cada personagem. Se Hooper não tivesse exagerado na extensão de algumas cenas, a produção teria ultrapassado o nível de 100% em perfeccionismo.

Os Miseráveis concorre ao Oscar em oito categorias incluindo Melhor Filme, Ator (Hugh Jackman) e Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway). 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

Veja abaixo o trailer oficial do filme: