domingo, 10 de novembro de 2013

Il Volo


Já pensou em assistir a um espetáculo onde é possível ouvir simultaneamente todo o classicismo presente na ópera, o modernismo da música pop e a sutileza do canto romântico? Pois saiba que essa mesclagem já é possível e vem fazendo sucesso por todo o mundo, atraindo públicos de diferentes gostos musicais que se unem em prol de uma musicalidade única e contagiante para os ouvidos de todas as faixas etárias. Como é o caso do trabalho produzido pelo trio Il Volo, grupo formado por três jovens tenores italianos: Gianluca Ginbole Castorani (18), Piero Barone Ognibene (20) e Ignazio Boschetto (21). 

Esses três rapazes despertaram seu potencial para a música ainda na infância e decolaram de vez nesta carreira após participarem de uma competição musical da TV Italiana RAI, em 2009. Desde então vêm se tornando conhecidos por onde passam e conquistando inúmeros fãs pelo planeta. Depois de já se apresentarem no Brasil em 2012, eles voltam para cá no palco do Teatro Bradesco, em São Paulo, para o lançamento do álbum We Are Love – o primeiro CD Il Volo foi lançado em 2010 e chegou a ocupar a 10a posição na Bilboard 200 e a primeira no ranking de álbuns clássicos.

Mesmo quem não for um apreciador de primeira instância de música clássica certamente se encantará com a performance vocal destes três jovens, cujos timbres arrepiam até as paredes do teatro. Afinal, Il Volo não se destaca por cantar ópera em seu sentido mais tradicional, e sim por fazer justamente o oposto ao trazer um classicismo dotado de um modernismo oriundo do conceito de ópera pop.

Entre as canções que se destacam no repertório do espetáculo estão aquelas endeusadas pelos apreciadores da boa música, como Memory, Smile, Granada, Il Mondo e um esplêndido encerramento que levou a plateia a cantar em coro a aclamada Sole Mio. Considerado um tenor spinto – que alcança o tenor lírico com facilidade, ou seja, um timbre encantador semelhante ao do violoncelo – Piero Barone é quem mais se destaca do trio.


Trata-se de um concerto destinado a cativar públicos de todas as idades justamente por quebrar o conceito mais classicista da ópera e modernizá-lo, para assim convidar um público mais jovem a imergir neste encantador mundo da música clássica. Il Volo fará mais três apresentações nos dias 11, 12 e 13 de novembro no Teatro Bradesco. Imperdível.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Três Dias de Chuva


Quem já não se frustrou ou se irritou com uma situação aparentemente desapontadora e, após investigá-la a fundo, descobre revelações surpreendentes, indicando que nada é o que parece ser? Esta intriga é um dos cernes da peça Três Dias de Chuva, que narra a história de dois irmãos que se reencontram para a partilha de bens deixada por seus falecidos pais e vão junto com seu amigo de infância Pip – o filho do falecido sócio do pai deles – para a leitura do testamento, a qual lhes reserva grandes surpresas.

Dividido em dois atos, o espetáculo mostra em seu primeiro momento, no ano de 1995, a atriz Carolina Ferraz* interpretando a personagem Anna, que reencontra seu irmão Walker (Otávio Martins), após este sumir por um ano logo que seu pai morreu. Passado algum tempo de peça, surge Pip (Petrônio Gontijo), que terá altas discussões com Walker depois dos mistérios revelados na leitura do testamento. Já no segundo ato, que se passa em 1960, Carolina, Martins e Gontijo aparecem no palco encarando os pais de Walker, Anna e Pip e grandes segredos escondidos por eles surpreenderão a plateia.

Escrito por Richard Greenberg, um dos grandes dramaturgos norte-americanos, e com direção de Jô Soares, o espetáculo é composto por um roteiro rico de diálogos afiados e que trabalham a mente do público convidando-o a fazer uma análise reflexiva sobre o choque de gerações. A encenação de duas épocas distintas, e que ao mesmo tempo se mostram entrelaçadas pela ligação entre os personagens do espetáculo, proporciona uma excelente conexão dos espectadores com a trama, já que eles precisarão estar o tempo todo atentos a tudo que se passa, principalmente no segundo ato, para fazerem as devidas associações entre os papeis cênicos e descobrirem o que realmente está por trás dos pais de Walker, Anna e Pip que revelam, inclusive, terem vivido um triângulo amoroso.

Por focar nesta passagem de tempo, mostrando as diferenças comportamentais e sociais em cada época representada no palco, a peça tem como principal atributo a transformação dos atores em cena de forma desafiadora, já que eles precisam denotar claramente essa mudança, não somente através do comportamento, como também de uma linguagem tão rica quanto a empregada por Greenberg. Neste quesito, o ator Otávio Martins é quem mais se destaca, cumprindo perfeitamente sua função ao incorporar, no primeiro ato, um Walker ainda extremamente perturbado, não somente com a morte do pai, mas também com o complicado relacionamento tido com ele quando vivo. Já no segundo ato, ele encara um papel extremamente oposto ao seu primeiro, por interpretar o pai introvertido e gago de Walker.

 Em relação aos demais atores, essa transformação se mostra perceptível de modo bem menos atenuante, chegando a ser quase linear no caso de Gontijo, algo que foge um pouco da obra de Greenberg, que propõe uma exteriorização das diferenças de geração.

Além disso, o linguajar cênico do elenco poderia identificar melhor as diferenças de época, mas acaba mantendo grandes similaridades entre os dois atos. Todavia, no geral, a genialidade do roteiro continua a se fazer presente no palco e não deixa de prender a atenção do público devido a sua excelente história.

*A partir de 11 de Outubro, a atriz Carolina Ferraz passou a ser substituída pela Adriane Galisteu.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Elysium


O ano é 2154. O planeta Terra está fadado à tragédia total, constituindo um lugar sem esperança, cercado de doenças e sujeira por todos os lados, sendo habitado apenas pela população mais pobre que sobrevive à base de migalhas e, à procura desesperada por sustento, muitos acabam entrando para o mundo da criminalidade.

Enquanto a maioria morre vítima da fome e de doenças num planeta de condições precárias, outros desfrutam de uma vida luxuosa, cercada de todo o conforto possível e ainda usufruindo de uma tecnologia super avançada para se curar de todas as doenças como num passe de mágica.  Esse paraíso é Elysium, uma estação espacial habitada pelos ricos que abandonaram a Terra para viverem longe de sua precariedade e dos pobres que nela habitam.

Este é o cenário do filme Elysium, que estreou em primeiro lugar nos EUA faturando R$ 72 milhões apenas no primeiro fim de semana. No Brasil a produção chegou aos telões em 21 de setembro de 2013. Com concepções extremamente futuristas, a trama mostra um universo cercado de máquinas – incluindo robôs parecidos com humanos – capazes de curar as mais agravantes doenças, como o câncer, num piscar de olhos, através apenas do simples apertar de um botão.

Enquanto os habitantes de Elysium podem desfrutar de robôs para servi-los a todo o momento, muitos moradores da Terra são expostos a incontáveis horas de trabalho em fábricas para produzirem mais robôs que serão enviados à estação espacial – como é o caso do protagonista Max (Matt Damon) que, após sair da prisão, vai trabalhar na produção robótica. Desde pequeno ele sempre teve o sonho de viver em Elysium e considera uma injustiça que apenas os ricos possam ter acesso ao lugar, deixando os pobres à margem da doença e miséria. Um dia, após ser exposto a quantidades fatais de radiação em seu trabalho e percebendo que por consequência disso lhe restariam poucos dias de vida, Max tentará a todo o custo chegar a Elysium, pois lá está sua única chance de se curar.

Para isso ele contará com a ajuda de um hacker revolucionário (Wagner Moura) para chegar ao seu destino, mas, em troca do favor, terá de invadir a mente de um ricaço que está na Terra e sabe as informações para entrar em Elysium. O que eles não contarão é com a intervenção de um psicótico mercenário (Sharlto Copley), que vive na Terra e trabalha para os comandantes da estação espacial, e inicialmente fará de tudo para impedir que o plano de Max dê certo.

Estreando no cinema hollywoodiano, o ator Wagner Moura demonstra estar bem à vontade em seu papel, tanto na atuação corporal, quanto na expressão vocal – o ator fala muito bem o inglês, apesar de não conferir em seus diálogos maior suavidade e continuidade rápida entre as palavras, típica da fala dos nativos, e conferindo um jeito mais brasileiro às suas conversas.  Porém este detalhe acaba sendo ofuscado pela tamanha desenvoltura interpretativa de Moura, que cresce gradativamente ao desenrolar do filme à medida que sua participação se torna maior.

A característica tão contundente de seu personagem permite que Moura possa exteriorizar e demonstrar com mais facilidade diante das câmeras seu talento interpretativo por meio corporal, fazendo com que ele não seja apenas um mero coadjuvante, mas ganhe destaque em grande parte da trama, inclusive desviando a atenção do público ao protagonista para si – não que Damon também não esteja excelente em seu papel, mas como se limita a encarar as atuações que o roteiro exige de seu personagem – até porque trata-se de um papel de expressões mais contidas e interiorizadas – a  atuação de Moura se torna mais visível.

A atriz brasileira Alice Braga, que já atuou em diversos outros filmes estrangeiros, também marca presença em Elysium como a amiga de Max que também pretende embarcar para a estação espacial a fim de curar sua filha, vítima de uma doença grave.

Outro destaque no quesito expressão cênica vai para o ator Sharlto Copley no papel do mercenário. Seus trejeitos e total vivacidade conferidos ao papel prendem a atenção do público, já que ele interpreta um dos principais antagonistas da trama que a todo o momento indica estar prestes a destruir o protagonista em conflitos cheios de ação e suspense.

Todavia, mesmo com tamanho elenco, o roteiro frustrará principalmente os telespectadores que forem assistir ao filme em busca de conteúdo histórico – algo que deixa a desejar, já que quase toda a trama é preenchida por efeitos visuais e sonoros e muitos combates, os quais acabam se tornando vazios diante da pobreza de conteúdo.

A produção tem direção de Neill Blomkamp, que se destacou no mercado cinematográfico depois de seu longa Distrito 9, indicado a 4 Oscar, incluindo as categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro. Atores de diversas nacionalidades compõem o elenco da trama, sendo talvez até mesmo uma sacada do diretor para sua mensagem crítica à desigualdade social por meio do filme.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas



domingo, 1 de setembro de 2013

Tim Maia - Vale Tudo, o Musical


Aplaudido por mais de 320 mil pessoas no Rio e em São Paulo, o espetáculo Tim Maia – Vale Tudo, o Musical faz as últimas apresentações no Teatro Procópio Ferreira, na cidade paulistana. Baseado no livro de Nelson Motta, a trama narra alguns trechos marcantes da vida de Sebastião Rodrigues Maia, o famoso Tim Maia, um dos cantores e compositores de maior influência nacional, acompanhados de seus grandes sucessos musicais que repercutiram e continuam a repercutir entre gerações, mesmo após uma década e meia de seu falecimento.

Nesta temporada que retornou a São Paulo, o ator Danilo Moura é quem se destaca no papel do protagonista do espetáculo, que também já contou, em outras temporadas, com a participação de Tiago Abravanel – neto do apresentador Silvio Santos. Tiago se consagrou como Tim Maia e foi muito aclamado por público e crítica.

Mas Danilo Moura também se mostra incrível em corpo e voz ao atuar em cenas de memoráveis momentos vividos por Tim, como a entrada na adolescência, as inúmeras dificuldades encontradas para fazer sua carreira decolar, o surgimento da primeira banda, Os Sputniks, composta por ele e o rei Roberto Carlos, os encontros com Elis Regina, Jorge Ben e Erasmo Carlos e também seu intenso envolvimento com as drogas e o álcool que acabaram por destruir sua saúde e prejudicar gravemente a carreira artística. Devido a isso, ao final do musical, aqueles que viveram a época ou até mesmo passaram por tal situação também puderam relembrar o quanto que os fãs de Tim Maia dependiam da sorte quando este, ao final de sua carreira e vida, deixou de comparecer a inúmeros shows pelo péssimo estado de saúde em que se encontrava, com o organismo deteriorado pelos entorpecentes.

Sob uma abordagem narrativa, a musicalidade do espetáculo se revela apenas nos momentos em que são cantados os principais sucessos musicais do protagonista da história. E mesmo quem não é tão fã de carteirinha de Tim acaba se envolvendo com o convidativo clima cênico gerado no palco, além, é claro, do ritmo atraente contido nas músicas do cantor que viraram sucesso como “Vale Tudo”, “Chocolate”, “Azul da Cor do Mar”, “Gostava Tanto de Você”, “Você”, entre outros...

Logo de início, o primeiro número musical de Tim Maia – Vale Tudo, o Musical já cria forte empatia entre os espectadores nos primeiros minutos de peça, ao trazer o último show de Tim Maia – que não aconteceu devido ao infarto que ele sofreu no palco, resultando em sua morte. A cena se passa de forma tão vívida e enérgica que contraria a tendência convencional de alguns espetáculos de trabalharem gradativamente o crescimento cênico, o que acaba criando um envolvimento na plateia apenas com o decorrer da trama.

Graças ao excelente trabalho vocal do elenco, coreografias bem delineadas e uma boa dose de humor aplicada em quase todos os diálogos entre os personagens e também no estereótipo exagerado de muitos deles – além é claro da própria repercussão deixada por Tim, que por si só prende a atenção do público – que o espetáculo mantém o mesmo ritmo atraente do começo ao fim, com exceção de pequenas oscilações ocorridas no final, o qual se torna um pouco extensivo, em razão até mesmo da abordagem narrativa que contribui para prolongar o tempo da trama. No entanto, nada que não culmine para um grande final ovacionado pela plateia.

A desenvoltura corporal de Moura e, principalmente, a rouquidão de sua voz carregada e grave contribui para reviver a voz do grande artista que introduziu o estilo soul na música popular brasileira. Faltou apenas sua marca registrada, o característico bigode presente ao longo de sua vida, mas o ator soube trabalhar muito bem o jeito carismático e ao mesmo tempo exigente de Tim Maia, contribuindo para viver intensamente o personagem.

O ator Reiner Tenente também se destaca ao conferir jeitos e trejeitos na incorporação do ator Roberto Carlos e outros personagens, acompanhados de uma linguagem corporal que por si só leva a plateia a dar altas risadas, destaque este também marcante na atuação e impressionante voz de Pedro Lima, que interpreta, entre outros papéis, o pai de Tim Maia.


Dirigido por João Fonseca, Tim Maia – Vale Tudo, o Musical permanece em cartaz até 8 de setembro e certamente é um espetáculo emocionante não só para os fãs deste cantor, como até mesmo para quem não acompanhou muito sua carreira, mas acaba se encantando, dada a vivacidade trabalhada pelo musical do começo ao fim. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Minha Mãe é uma Peça


Quem já conhece e se diverte com a caricata personagem dona Hermínia no programa 220 volts do Multishow apresentado pelo ator Paulo Gustavo, certamente também se encantará com as cenas da personagem nos telões em Minha Mãe é Uma Peça. E mesmo quem não conhece a personagem acabará se familiarizando de certa forma com a comicidade das situações apresentadas, mesmo que algumas venham dotadas de exageros cênicos.

Assim como ele incorpora o papel em 220 volts – onde ele não só apresenta como encara todos os personagens do programa –, no filme o ator Paulo Gustavo interpreta a dona Hermínia – a mãe exagerada que vive em constantes brigas com a filha obesa Marcelina, a quem a mãe vive chamando de baleia e outros nomes depreciativos, e seu filho Juliano, que apesar do jeito afeminado tenta esconder de Hermínia sua homossexualidade – que vai passar um tempo na casa da tia após ouvir sem querer uma conversa entre seus filhos, seu ex-marido Carlos Alberto (Herson Capri) e Soraya (Ingrid Guimarães), mulher atual dele, e que a deixa muito magoada.

A partir de então Marcelina e Juliano ficam sozinhos em casa tentando se virar como podem, já que tanto um quanto o outro viveram sempre às custas da mãe, ao contrário do irmão primogênito deles que, segundo Hermínia, sempre foi um rapaz exemplar e vive com a esposa em Brasília.

Enquanto Marcelina passa quase todo o tempo da trama desesperada em busca de comida, seu irmão Juliano está mais preocupado em saber o paradeiro da mãe. Paralelamente a este cenário, dona Hermínia volta no tempo na casa de sua tia enquanto conta a ela diferenciadas e inusitadas situações vividas principalmente com seus herdeiros mais novos. A maioria das lembranças é acompanhada das atuações, que ilustram as histórias narradas pela protagonista fazendo a plateia cair na gargalhada, como nos tombos em que a pequena Marcelina sofria quando criança, a obsessão dela por comida, ou quando Juliano chega com um namoradinho em casa e passa por um verdadeiro interrogatório da mãe, que já desconfia da sexualidade do filho.

O roteiro praticamente gira em torno das atuações de dona Hermínia, de modo que os demais atores se tornam meros coadjuvantes diante não só de quase todo o espaço preenchido pela personagem, como da bela interpretação do ator Paulo Gustavo para o seu papel. Como a trama parece abrir espaços para uma atuação mais desenvolta e menos estruturada, possibilitando o encaixe de diálogos improvisados, Paulo Gustavo acaba se sobressaindo perfeitamente bem como já é de praxe no programa, pois tem um forte para o improviso.

Talvez seja por isto que a simplicidade da história e a falta da quebra de uma linearidade que pudesse surpreender o público acabam sendo ofuscados pelo personagem principal que chega a ser muito maior que até o próprio filme em si – se outro ator não habituado aos trejeitos do personagem o fizesse sob outro prisma, o filme já poderia estar fadado a um grande fiasco e só não o foi pela salvação de Paulo.

Este é um ator que vem se destacando cada vez mais na mídia humorística. Depois de arrebentar em seu programa cômico 220 volts, o humorista é certamente de longe o destaque de um seriado exibido há quase um mês no Multishow, Vai que Cola, e parece ter tudo para ascender ainda mais em sua carreira artística. Agora é torcer para que ele continue divertindo diferenciados públicos por meio de seu humor livre sem ser esquematizado em roteiros sólidos que o deixem preso – como a emissora Globo vem fazendo com astros do improviso como Marcelo Adnet e Fábio Porchat.


Minha Mãe é uma Peça tem direção de André Pellenz e foi para os telões depois de obter grande sucesso no palco teatral.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O Concurso


Com perfeita identidade de besteirol americano, o filme brasileiro O Concurso traz diversas piadas forçadas e personagens estereotipados passando por várias situações inusitadas que, a todo o momento, lembram os costumeiros roteiros humorísticos estadunidenses que arrancam risos do público através das cenas mais absurdas. É possível enxergar até mesmo certa similaridade com Se Beber Não Case, ressaltando a diferença que esta produção soube trabalhar e conduzir o roteiro com mais detalhes, um humor que divertia o público e criava expectativas com histórias exageradas, mas ao mesmo tempo bem elaboradas.

Já em O Concurso, à medida que se transcorrem os 86 minutos de filme, este caminha cada vez mais para o fiasco. A trama conta a história de quatro candidatos que foram selecionados para fazer uma prova referente à ultima etapa do processo de seleção para uma vaga de juiz federal no Rio de Janeiro. São eles: um humilde cearense (Anderson Di Rizzi) que vive com sua esposa (Carol Castro) que está grávida, um gaúcho (Fábio Porchat) que esconde sua homossexualidade e tem um pai (Jackson Antunes), extremamente rígido, que exige do filho a conquista da vaga de juiz, um rapaz (Rodrigo Pandolfo) extremamente tímido do interior de São Paulo e um advogado (Danton Mello) oportunista que consegue se safar de várias situações sempre com seu famoso “jeitinho”.

Esses quatro embarcam para o Rio de Janeiro a fim de realizar a última prova que dará o título de juiz a um deles e passam por distintas situações antes do teste. A abertura da trama mostra os candidatos deitados de forma completamente inusitada em uma rocha, indicando que os rapazes tiveram uma noite “daquelas”. Em seguida, o filme volta no tempo, mostrando a partida de cada um para o Rio e como eles chegaram àquela situação.

O que parecia uma história com uma trajetória cheia de obstáculos e expectativas criadas ao redor dos personagens antes que eles pudessem fazer a temida prova, acaba culminando num roteiro estático e dotado de pouquíssimas cenas surpreendentes ou realmente cômicas.
Nem a desenvoltura dos quatro atores que tentavam crescer dentro dos seus respectivos personagens com seus dotes cômicos, que vez ou outra arrancavam algumas risadas da plateia, foi páreo para a pobreza do roteiro.   

O ator Fábio Porchat, que depois de deslanchar seu talento entre milhares de internautas por meio dos diversos vídeos humorísticos exibidos no canal do Youtube chamado “Porta dos Fundos” e ainda ser chamado para atuar no programa “A Grande Família”, além de marcar presença em vários comerciais, certamente foi uma das principais apostas desta produção para fazer jus ao seu gênero comédia e divertir o público.

É certo que, dada a caracterização do seu personagem, o ator está bem, interpretando um gaúcho que tenta conter seu jeito afeminado para não revelar sua homossexualidade, no entanto ele fica muito aquém de sua capacidade artística por se prender a um roteiro que está abaixo de seu talento.

O Brasil vem se destacando por um leque de humoristas como Marcelo Adnet, Fábio Porchat, Ingrid Guimarães e Paulo Gustavo, os quais simplesmente arrebentam quando estão em situações cômicas, das quais eles mesmos têm o total domínio da cena. Mas, querendo abocanhar todas as grandes estrelas para si, a Rede Globo acabou por roteirizar e, assim, prejudicar a espontaneidade cômica de alguns artistas, como foi o caso de Adnet, que teve de seguir o fraquíssimo roteiro de O Dentista Mascarado, cuja baixa audiência foi responsável pelo pouquíssimo tempo de duração da série.

Enfim, o mercado artístico brasileiro está repleto de grandes estrelas que sabem entreter e conquistar a admiração do público, mas, principalmente no que tange ao aspecto cinematográfico, é necessário investir em roteiros mais trabalhados que estejam compatíveis com o ritmo e o talento dos atores.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas


domingo, 4 de agosto de 2013

A Obscena Senhora D


Quem nunca se questionou, seja para si ou para os demais, sobre as grandes perguntas que intrigam a humanidade a respeito do inexplicável milagre da vida e toda sua evolução e complexidade? Essa reflexão é um dos temas principais a ser explorados no monólogo dramático A Obscena Senhora D.

A atriz Suzan Damasceno vive a personagem Hillé, uma viúva de 60 anos que sente muita falta de seu marido e passa grande parte de seus dias relembrando os diversos momentos vividos com ele, principalmente os mais íntimos. Há anos Hillé vive debaixo do vão da escada de sua própria casa, onde ela se enclausurou e decidiu não sair mais. A perda do esposo apenas contribuiu para que ela transitasse ainda mais entre o sano e insano sendo tachada de louca por toda a vizinhança.

Durante os 60 minutos de espetáculo, a personagem permanece quase o tempo todo sentada em uma cadeira, revelando para o público alguns fatos de sua vida e, principalmente, as angústias que tanto a assolam e a fizeram se isolar dos demais. Ela tem conversas frequentes com um imaginário menino porco, um meio encontrado por ela de questionar a Deus todas as suas dúvidas.

E foi justamente a imensidão de incógnitas recheando o cérebro de Hillé que a fez se afastar até mesmo de atividades rotineiras, já que ela queria e não conseguia obter a compreensão de tudo, pois dizia apenas saber da existência do divino sem entender sua ação sobre cada coisa na Terra.

A intelectualidade presente no diálogo com o público se dá de forma cativante. A peça propõe aos espectadores não apenas analisarem os conflitos psicológicos de Hillé como meros observadores, mas também entrar dentro da complexa e atormentada mente da protagonista e ‘sentir na pele’ todas as suas aflições.

Toda a genialidade do roteiro se exalta ainda mais diante da intensa e brilhante atuação da atriz Suzan, que confere total entonação e vivacidade em cada palavra pronunciada por ela, apenas despertando no público a vontade de se envolver cada vez mais com o calor e a emoção provocados pelo texto.

O simples cenário vira apenas um mero complemento no palco, já que a atriz consegue incorporar toda a complexidade do roteiro. Vale ainda destacar os diversos momentos em que ela narra conversas entre Hillé e seu marido, ou os vizinhos, transitando entre passado e futuro. Em todos estes diálogos, diante de sua ótima transformação vocal e cênica, ela delineia tempo e personagens de uma forma tão clara e precisa, criando um perfeito cenário imaginário, que permite a total compreensão da imersão na trama pela plateia.

Autointitulada de A Senhora D, Sem Deus, ela leva a quarta letra do alfabeto em seu nome por se referir a si mesma como a imagem viva da Derrelição, ou seja, do desamparo, do abandono e do isolamento total ao qual ela mesma se entregou por completo na tentativa desesperada de tentar entender o incompreensível, afastando-se dos demais. Já o termo obsceno é para se referir à forma como ela encara a própria existência, dizendo ser a vida uma aventura obscena, de tão lúcida.
 
Sua preferência pela cor parda, sem vida, também se destaca na composição e iluminação do cenário e até mesmo nos papéis em formato de peixes que ela recorta e deixa dentro do aquário para substituir os animais que morreram.


A Obscena Senhora D é baseada no texto da escritora brasileira Hilda Hilst e tem direção de Donizeti Mazonas e Rosi Campos. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas