domingo, 4 de agosto de 2013

A Obscena Senhora D


Quem nunca se questionou, seja para si ou para os demais, sobre as grandes perguntas que intrigam a humanidade a respeito do inexplicável milagre da vida e toda sua evolução e complexidade? Essa reflexão é um dos temas principais a ser explorados no monólogo dramático A Obscena Senhora D.

A atriz Suzan Damasceno vive a personagem Hillé, uma viúva de 60 anos que sente muita falta de seu marido e passa grande parte de seus dias relembrando os diversos momentos vividos com ele, principalmente os mais íntimos. Há anos Hillé vive debaixo do vão da escada de sua própria casa, onde ela se enclausurou e decidiu não sair mais. A perda do esposo apenas contribuiu para que ela transitasse ainda mais entre o sano e insano sendo tachada de louca por toda a vizinhança.

Durante os 60 minutos de espetáculo, a personagem permanece quase o tempo todo sentada em uma cadeira, revelando para o público alguns fatos de sua vida e, principalmente, as angústias que tanto a assolam e a fizeram se isolar dos demais. Ela tem conversas frequentes com um imaginário menino porco, um meio encontrado por ela de questionar a Deus todas as suas dúvidas.

E foi justamente a imensidão de incógnitas recheando o cérebro de Hillé que a fez se afastar até mesmo de atividades rotineiras, já que ela queria e não conseguia obter a compreensão de tudo, pois dizia apenas saber da existência do divino sem entender sua ação sobre cada coisa na Terra.

A intelectualidade presente no diálogo com o público se dá de forma cativante. A peça propõe aos espectadores não apenas analisarem os conflitos psicológicos de Hillé como meros observadores, mas também entrar dentro da complexa e atormentada mente da protagonista e ‘sentir na pele’ todas as suas aflições.

Toda a genialidade do roteiro se exalta ainda mais diante da intensa e brilhante atuação da atriz Suzan, que confere total entonação e vivacidade em cada palavra pronunciada por ela, apenas despertando no público a vontade de se envolver cada vez mais com o calor e a emoção provocados pelo texto.

O simples cenário vira apenas um mero complemento no palco, já que a atriz consegue incorporar toda a complexidade do roteiro. Vale ainda destacar os diversos momentos em que ela narra conversas entre Hillé e seu marido, ou os vizinhos, transitando entre passado e futuro. Em todos estes diálogos, diante de sua ótima transformação vocal e cênica, ela delineia tempo e personagens de uma forma tão clara e precisa, criando um perfeito cenário imaginário, que permite a total compreensão da imersão na trama pela plateia.

Autointitulada de A Senhora D, Sem Deus, ela leva a quarta letra do alfabeto em seu nome por se referir a si mesma como a imagem viva da Derrelição, ou seja, do desamparo, do abandono e do isolamento total ao qual ela mesma se entregou por completo na tentativa desesperada de tentar entender o incompreensível, afastando-se dos demais. Já o termo obsceno é para se referir à forma como ela encara a própria existência, dizendo ser a vida uma aventura obscena, de tão lúcida.
 
Sua preferência pela cor parda, sem vida, também se destaca na composição e iluminação do cenário e até mesmo nos papéis em formato de peixes que ela recorta e deixa dentro do aquário para substituir os animais que morreram.


A Obscena Senhora D é baseada no texto da escritora brasileira Hilda Hilst e tem direção de Donizeti Mazonas e Rosi Campos. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 28 de julho de 2013

Rock In Rio - O Musical


Baseado num dos maiores festivais de música realizados no Brasil, o musical Rock in Rio – O Musical conta um pouco da história do evento e do contexto político em que estava inserido, mas se atém principalmente a mostrar as músicas dos grandes cantores brasileiros e internacionais que fizeram sucesso e continuam a ter grande repercussão entre as diversas gerações, sendo idolatradas por todas elas.

A trama se foca na história fictícia de Aleph, um jovem rapaz que decide ficar mudo após a morte de seu pai e só se conecta com o mundo através da música, para desespero de sua mãe (Lucinha Lins), que já enfrentou 15 anos sem ouvir uma sílaba do filho e quer convencê-lo a falar a todo o custo.  Além disso, Aleph (Hugo Bonemer) é extremamente tímido e passa a maior parte do tempo conectado ao mundo musical através de seus fones de ouvido.

A situação começa a mudar um pouco para o rapaz quando ele conhece Sofia (Yasmin Gomlevsky), filha de um empresário musical (Cláudio Lins) que irá produzir a primeira versão do Rock in Rio no Brasil, e seu encantamento pela garota faz com que ele perca um pouco da timidez e consiga até mesmo expressar algumas palavras e cantar em voz alta. Enquanto a garota ajuda o protagonista a se tornar alguém mais comunicativo, este, por sua vez, desperta na nova amiga um amor pela música, já que Sofia só gostava de falar e mal podia ouvir alguém cantando desde o desaparecimento de sua mãe, que ela acreditava ser culpa da música.

Na abertura do espetáculo podemos ver as representações de diversos ícones musicais, como Rita Lee, Cazuza, Ozzy Osbourne, Axl Rose, Freddie Mercury, Stevie Wonder e Britney Spears, entre outros, cantando a música tema do festival. A cena de abertura cria uma empatia na plateia logo de início, permitindo que ela se envolva totalmente com esta superprodução rapidamente – afinal, quando a peça usa de recursos cênicos extremamente atraentes para os espectadores se conectarem a ela logo de início, o espetáculo tem tudo para crescer em cena em conjunto com a plateia.

E assim acontece neste musical, cuja empatia criada no começo cresce gradativamente com o desenrolar da trama. Tanto em termos de cenografia quanto coreografia, Rock In Rio – O Musical é extremamente detalhista e retrata muito bem toda a mistura de estilos musicais, que foi ganhando força num festival que, a princípio, focava nos astros do rock.

Um dos momentos mais deslumbrantes da peça ocorre justamente na reprodução desta mescla de estilos, ao fazer um compacto por diversos sucessos nacionais e internacionais incluindo rock, pop, axé, forró, entre outros de modo intenso e instantâneo, ao mesmo tempo criando uma imensa vontade de dançar e cantar junto com o elenco. Pincela a apresentação também alguns costumes, como a moda vigente e alguns jargões de época.

Apesar de ter uma identidade completamente jovial, o espetáculo conquista todas as gerações por trazer os diversos sucessos musicais que transitaram entre 1985 (quando ocorreu a primeira edição do Rock In Rio) e hoje, como “Pro Dia Nascer Feliz”, “Freedom”, “Tempo Perdido”, “Será”, “Ovelha Negra”, “Pessoa Nefasta” e “Fear of the Dark” despertando, certamente, boas lembranças em quem já passou pelos tempos dos primeiros festivais e, principalmente, participou deles, e também chamando os mais jovens para curtir sucessos que encantaram e encantam a todos, face à sua inefável musicalidade.

Todas as canções são entoadas de modo tão profundo, acompanhadas de brilhantes interpretações e coreografias crescendo grandiosamente a cada nova troca cenográfica, que chegam até mesmo a ser maiores do que a própria história da trama em si, cuja simplicidade se ofusca por trás da reprodução do festival que, por si só, toma conta da cena.

O ator Hugo Bonemer, que faz o protagonista da trama, por exemplo, está muito bem em seu papel do rapaz tímido, mas passa por uma explosão cênica instantânea em todos os momentos em que canta, tamanha a intensidade interpretativa que ele confere para cada estrofe, cantado e levando a plateia para o cenário descrito na letra da música. A atriz Yasmin Gomlevsky também se destaca pelo seu vozeirão na entonação das canções.

Outros atores como Lucinha Lins, Ícaro Silva (que se destaca no papel de amigo de Alef) e Luiz Pacini (que faz o dono de uma loja de discos) também demonstram seu talento musical como cantores solo.

Com direção de Delia Fischer e João Fonseca, o musical ainda usa de ótimos recursos para, por exemplo, promover um diálogo apenas com as letras de músicas já conhecidas. Rock In Rio tem três horas de duração que passam quase despercebidas pela plateia, tamanho o envolvimento criado por toda a superprodução.

Este é mais um musical totalmente brasileiro que faz sucesso no país. Diante do repertório de produções da Broadway que ganham versão nacional, o crescimento do número de musicais criados aqui como Tim Maia – Vale Tudo, o musical e Milton Nascimento – Nada Será como Antes, só reforça a capacidade do país em também elaborar espetáculos baseados em grandes tesouros nacionais, em especial aqueles baseados na nossa própria cultura.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Rei Leão


Título de maior bilheteria da Broadway, recebido em 2012, com arrecadação de U$ 835,8 milhões desde sua primeira apresentação no local, ocorrida em 13 de novembro de 1997 e que ficou conhecido como O Rei Leão: O Marco da Broadway, e um dos musicais de maior sucesso na história do teatro, chega ao Brasil no Teatro Renault (antigo Teatro Abril), localizado em São Paulo.

A trama, baseada num dos mais famosos filmes produzidos nos estúdios da Disney, que encantou gerações e continua a encantar até hoje, traz a história do simpático leãozinho Simba (o papel revezado em cada apresentação pelos atores mirins Gustavo Bonfim, Henrique Filgueiras, Matheus Braga e Yudchi Taniguti) – filho do Rei da Selva: o Leão Mufasa (papel de César Mello) – passando por uma série de aventuras e perigos logo após a morte do seu pai, pois o filhote é orientado pelo malvado tio Scar (Osvaldo Mil) a fugir, o que faz seu sobrinho acreditar ser o culpado pela morte do pai, quando na verdade o tio é o responsável pela tragédia, visando assumir o posto do irmão e todo seu poder.

Após fugir, Simba encontra os simpáticos e divertidos Timão (Ronaldo Reis) e Pumba (Marcelo Klabin), um suricato e um javali, que vão acompanhá-lo enquanto o pequeno cresce e entra na fase da puberdade (e passa a ser interpretado pelo ator Tiago Barbosa). Nesse período, ele também reencontra Nala (Josi Lopes), uma amiga de infância, quando um clima de romance pinta no ar.

Quem já viu e reviu o filme, seja nos telões ou nas telinhas, certamente perceberá que ele foi totalmente reproduzido no palco quase sem alterações, com o destaque que a animação da Disney praticamente ganha vida ao ser transformada em uma superprodução que faz total jus a esse título, vislumbrando o olhar da plateia do Teatro Renault.

Logo de início, a emocionante abertura composta pela passagem de diversos animais para assistirem ao nascimento do filho do Rei Leão já arranca suspiros emocionantes dos espectadores, pois o musical não se contenta em restringir um espetáculo de luzes, malabares, figurinos e cenários impecáveis aos limites do palco. Aplicando uma técnica circense, a entrada é marcada pela passagem destes personagens pelos corredores do teatro, interagindo, encantando e divertindo o público.

Passam pelas escadas da plateia atores fantasiados, que se movimentam com os braços e pernas apoiados em pernas de pau formando imensas girafas de pano, outra parte do elenco se junta para compor um elefante, cujo tamanho e formato é semelhante ao animal verdadeiro, entre muitos outros habitantes da floresta que, não apenas no início, como em vários outros momentos, interagem com os espectadores, deixando o espetáculo muito mais lúdico e dinâmico.

Há que se destacar também a atuação e desenvoltura dos três atores (Juliana Peppi, Jorge Neto e Felippe Moraes) que interpretam as famosas hienas, seguidoras do Leão Scar que, a pedido dele, o ajudam a preparar a armadilha que culminará na morte de Mufasa.  Momentos memoráveis do longa-metragem da Disney, como a aparição de Timão e Pumba cantando “Hatuna Matata” são reproduzidos impecavelmente no palco arrancando aplausos do plateia, contribuindo demasiadamente para despertar imensa empatia na público, pois quem não se encanta com estes engraçadíssimos personagens e a brilhante atuação e incorporação dos atores Ronaldo Reis e Marcelo Klabin, que interpretam o suricato e o javali?

Em termos de atuação, o destaque vai para o ator Cesar Mello, que interpreta o Mufasa. Mello consegue passar todas as características do seu personagem de forma clara e cativante, pois o ator está tão envolto em seu papel que, mesmo se estivesse desprovido de figurino, conseguiria fazer com que a plateia acreditasse no Rei Leão, que muitas vezes rouba toda a atenção do público para si no palco.  Já no quesito voz, o destaque vai para a atriz sul-africana Phindile Mikhize (que inclusive já cantou ao lado de Michael Jackson), que faz o papel da babuína Rafiki, e tem uma das vozes mais brilhantes do espetáculo emocionando o público ao entoar as canções.

Em termos de produção não há o que discordar: a mistura de efeitos cênicos e circenses por meio de malabares, simulação de pássaros que voam, cenários que se alternam instantaneamente e surgem de modo completamente distinto do anterior e repleto de objetos que parecem surgir magicamente levam a plateia para o exotismo selvagem africano, cenário da história. O próprio musical poupa a imaginação do público, pois o perfeccionismo na reprodução da selva, com a ajuda do excepcional trabalho de expressão corporal do elenco, é quase tão concreto que não há muito que imaginar diante de tamanho espetáculo, pois a realidade da trama parece acontecer ali no palco.

Não há como ficar indiferente, por exemplo, a uma das cenas mais deslumbrantes do musical, quando Simba vê a imagem de seu pai refletida na água e surge então repentinamente, ao fundo do palco, fragmentos que formam o rosto de Mufasa num tamanho gigantesco que chega a emocionar quem assiste. 

O sincronismo nas coreografias de dança, tão famoso por ocorrer de modo impecável nas produções norte-americanas, ganha cada vez mais fôlego nos palcos brasileiros como, por exemplo, nos números apresentados nesta peça e que acontecem em total sintonia.

O Rei Leão tem canções de Elton John e Tim Rice e tradução e autoria para a versão nacional de Gilberto Gil. A direção é de Julie Taymor.  

Por Mariana da Cruz Mascarenhas



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Dama da Noite


Escrita por Caio Fernando de Abreu (1948 – 1996) – um dos grandes escritores e dramaturgos brasileiros, famoso por retratar a sociedade sob um prisma dramático, sempre abordando temas como morte, sexo e solidão – a peça Dama da Noite é um monólogo que traz a história de uma mulher da noite que resolve trocar a vida noturna pelo dia e sofre arduamente por se sentir excluída do mundo em que vive.

O ator Luiz Fernando Almeida é quem se destaca no papel da protagonista, encarando uma personagem cercada de angústias e aflições por enxergar tudo ao seu redor como uma grande roda gigante, composta por seres humanos obstinados a viverem uma rotina pacata e totalmente privada de liberdade, se valendo de falsidade, moralismos e estereótipos discriminatórios, para se equilibrarem na roda e conquistarem uma alta posição.

Realizado no Espaço Cultural Pinho de Riga, o espetáculo acontece em um ambiente composto por poucos lugares, o que facilita para a concretização de um dos propósitos da peça que é proporcionar total interação com cada integrante do público. Durante os 50 minutos de apresentação, a personagem retrata suas angústias e visões realísticas e pesadas da sociedade em um cenário que indica ser sua casa, mas também pode ser qualquer outro lugar na imaginação da plateia. A proximidade do ator com o público permite que ele converse e interaja com vários expectadores durante todo o tempo de espetáculo.

Por se tratar de um roteiro baseado numa dramaticidade intensa e polêmica, o ator faz questão de transmitir todo esse clima pesado para os momentos de conversa e interação com alguns integrantes da plateia de modo bem invasivo, até mesmo para não quebrar a linearidade dramática trazida pelo espetáculo.

Luiz Fernando está espetacular na incorporação de seu personagem que se dá, logo de início, de maneira grandiosa e envolvente chegando a transmitir para a plateia os sentimentos melancólicos vividos pela protagonista. Com cenário simples, quase desprovido de efeitos, é o ator quem conquista os expectadores ao conseguir, por si só, transmitir geniosamente tudo o que Caio Fernando de Abreu quis repassar ao escrever esta peça.


Portanto, vale conferir esta obra de Abreu encenada no palco do Espaço Cultural Pinho de Riga. Com direção de André Leahun, Dama da Noite é uma peça para se assistir desprovido/a de qualquer preconceito e com uma mente totalmente aberta diante das interações e exposições que a plateia se sujeita a estar.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 16 de junho de 2013

Thriller Live Brasil Tour

Foto Caio Gallucci

Espetáculo musical que traz a trajetória de um dos maiores artistas pop de todos os tempos (Michael Jackson), Thriller Live Brasil Tour está em São Paulo desde o dia 10 de maio e permanecerá em cartaz no Credicard Hall até o dia 23 de junho. Idealizado pelo inglês Adrian Grant, biógrafo de Michael Jackson, ao chegar ao Brasil essa produção londrina adaptou cantores e dançarinos brasileiros à equipe estrangeira.

O show se fundamenta basicamente em apresentar os grandes sucessos musicais que marcaram a carreira do Rei do Pop desde a época em que o pequeno Michael, ainda menino, revelou ao mundo a genialidade artística que existia dentro de si – genialidade esta que estava, simplesmente, muitíssimo além do que grandes artistas seriam e são capazes de fazer – passando pelo auge e chegando aos últimos sucessos lançados por ele. Durante as quase três horas de show, as músicas apresentadas vêm acompanhadas de pequenas narrações sobre trechos da vida de Michael, intercaladas entre os números musicais.

Para muitos fãs de carteirinha do ícone pop, o simples fato de assistir a um espetáculo como Thriller Live, que relembra momentos memoráveis do rei e em algumas partes os convida a cantar e dançar os sucessos musicais que cativaram o planeta, é motivo suficiente para que esta produção seja avaliada como excelente. Todavia, certamente para alguns fãs e o público em geral, é visível que esta produção peca em alguns quesitos.

Os efeitos especiais, por exemplo, que eram concebidos nos shows de Michael por uma riquíssima composição técnica de luzes, sons e explosões, quase não marcam presença nesta produção – é óbvio que não devemos exigir para este espetáculo o mesmo nível técnico trabalhado nas apresentações do Rei do Pop. Porém, a simplicidade de efeitos – que se resumem a algumas luzes em combinações visuais, duas escadas que levam a uma passarela e um telão ao fundo do palco, para mostrar ilustrações que interagem com as canções cantadas – revelam que o show pretende focar muito mais no talento do elenco, tendo o cenário como mero complemento.

Além disso, a produção demora certo tempo para mostrar que prisma escolheu para contar a trajetória do rei, já que mistura narrações, encenações e danças sem deixar claro qual é a estrutura do roteiro. A apresentação inicial traz cantores e dançarinos que interpretam alguns sucessos da banda Jackson 5, na qual Michael iniciou sua carreira, sem estar totalmente envolvidos na desenvoltura espetacular trazida pelo rei e também pelos seus irmãos, quando cantavam junto com Michael.

Entretanto, com o desenrolar do show, fica visível o crescimento gradativo dos artistas no palco, principalmente após o intervalo, em que eles passam a interpretar as principais canções que estremeceram o mundo e foram destaques na carreira solo de Michael Jackson. Há que se destacar alguns momentos memoráveis de Thriller Live, como a encenação da música Smooth Criminal, que traz excelentes performances corporais acompanhadas de um ótimo trabalho vocal, despertando na plateia uma vontade de entrar no ritmo da dança junto com os intérpretes.

Enfim, à medida que o show se aproxima do fim, é cada vez maior o envolvimento que todo o elenco cria na plateia, diante da bela incorporação dos números musicais, porém, justamente por se tratar de uma homenagem ao Rei do Pop, cujo talento era praticamente inatingível em corpo e voz (e não é à toa que ele conquistou fãs nos cinco continentes, incluindo todas as gerações e ainda causa hoje muita euforia entre os fãs através de suas músicas, mesmo passados quase 4 anos de sua morte), é que o show deixa a desejar um pouco na falta de maior grandiosidade artística no palco do Credicard Hall.    


Thriller Live Brasil Tour também já esteve no Rio e em Brasília, antes de vir a São Paulo.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

sábado, 18 de maio de 2013

Somos tão jovens


Se você viveu a década 80 certamente se lembrará, e se nasceu posteriormente também já deve ter ouvido tocando por aí esses sucessos musicais como Tempo Perdido, Será, Pais e Filhos e Que País é Esse, algumas das canções que marcaram a carreira de um dos mais influentes e célebres cantores e compositores brasileiros dos anos 80: Renato Russo.

Vocalista da banda Legião Urbana, ele faleceu em 1996 vítima da AIDS, deixando um legado de fãs e até hoje seu talento continua a repercutir e fazer sucesso entre todos aqueles que acompanharam sua trajetória e, até mesmo quem só conheceu seu trabalho após sua morte e virou seu fã – pelo menos os apreciadores da boa música. Agora todos poderão acompanhar e conhecer um pouco mais da vida de Renato Russo com a estreia do filme Somos Tão Jovens nos telões.

Com direção de Antônio Carlos da Fontoura, a trama narra o momento em que Renato (papel de Thiago Mendonça), cujo nome original é Renato Manfredini Júnior (1960 – 1996) se descobriu no mundo musical e formou sua primeira banda, chamada Aborto Elétrico, junto com os irmãos Felipe Lemos e Flávio Lemos – do Capital Inicial, por quem Renato tinha uma queda – e o sul-africano André Pretorius. Esta foi a chamada fase “punk” da vida do protagonista, na qual ele vivia no mundo do rock pesado e, junto com sua melhor amiga Aninha (Laila Zaid), personagem fictício, estavam dispostos a revolucionar a sociedade e mostrar a importância de se lutar pelos direitos da liberdade de expressão.

Nesta banda, as constantes discussões com o baterista Fê Lemos fazem com que Renato abandone o grupo e forme, mais tarde, o Legião Urbana, que seria responsável pela sua decolagem direta para o sucesso nacional. A produção ainda retrata no começo o problema que Renato desenvolveu desde os 15 anos de idade, quando foi diagnosticado com uma doença óssea, a qual fica nítida para o público quando ele sofre um simples tombo de uma bicicleta e vai parar no hospital, sendo obrigado a permanecer por repouso absoluto por alguns dias após a alta hospitalar.

O destaque de Somos tão Jovens certamente vai para o ator Thiago Mendonça, que não apenas soube repassar os trejeitos deste ídolo musical que conquistou diversas gerações, como fez um magnífico trabalho vocal que permite ao público viajar no tempo em que Renato Russo era vivo. A similaridade da entonação vocálica de Mendonça com a do verdadeiro vocalista da Legião é um forte quesito para o filme fazer jus à trajetória profissional do cantor. Sem contar que as músicas cantadas por Mendonça no filme foram gravadas ao vivo, o que apenas comprova o talento do ator tanto para as canções, quanto para a total incorporação do papel.

A retratação da biografia de Russo nos telões relembra outra produção que também foi sucesso nos cinemas e narrou a história de outro grande ícone musical: Cazuza. Todavia – ao contrário desta trama que abordou os principais acontecimentos desde o crescimento na carreira artística até a sua morte (Cazuza também morreu de AIDS), passando pelas agravantes conturbações pessoais envolvendo sexo, drogas e a questão da homossexualidade – a produção de Fontoura tem enfoque mais voltado à sua carreira, buscando realçar toda a desenvoltura de Russo até chegar à Legião, sem se ater à parte polêmica da sua vida e mostrar como ele contraiu AIDS.


Além disso, o filme retrata apenas o começo da formação do grupo Legião Urbana e quando Renato fica sabendo que irá cantar com a banda fora de Brasília, sua cidade natal, pela primeira vez.  A produção ainda tem os atores Sandra Corveloni e Marcos Breda no papel dos pais de Renato Russo.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 11 de maio de 2013

Quase Normal


O que é normal para você? Será que existe um conceito unificado que possa explicar esse questionamento? Numa sociedade repleta de diversidades comportamentais, na qual ninguém é igual a ninguém, fica praticamente impossível formular uma única definição para a palavra “normal”.  Baseado neste quesito e nos inúmeros conflitos que assolam o psicológico de muitas famílias, o espetáculo musical Quase Normal traz para os palcos uma complexidade de fortes emoções dramáticas, repletas de mensagens que nos convidam a fazer uma análise pessoal interna de como lidamos com nossos problemas.

A peça se desenvolve em torno de Diana (Vanessa Gerbelli Ceroni), uma mulher que é frequentemente atormentada por transtornos bipolares e visões de seu filho primogênito jovem (Olavo Cavalheiro) – na realidade ele morreu ainda bebê. A dificuldade em aceitar a morte do neném é que faz com que Diana vá agravando seus transtornos psíquicos. Decorridos 17 anos da tragédia, ela continua atormentada com a perda e mal consegue dar atenção à sua filha, que nasceu pouco tempo depois da morte do menino.

A garota cresce então revoltada com a repulsa da mãe por ela, enquanto seu pai (Cristiano Gualda) tenta a todo o momento tranquilizar a esposa Diana e ensiná-la a ser forte. Todavia, diante da piora comportamental da protagonista, ele decide levá-la a um terapeuta (André Dias) e, a partir de então, inicia-se uma série de sessões de tratamentos diversos, incluindo uma pilha de remédios a serem tomados e até mesmo sessões de eletrochoque.

O espetáculo nos convida a fazer uma série de reflexões sobre as conturbações sentimentais que afligem o interior dos personagens, como o drama vivido não só por Diana em não conseguir aceitar a morte do filho, como do próprio esposo que se reveste de uma “armadura” para mostrar que superou a tragédia, quando na verdade ele faz de tudo para não tocar no assunto e desabar em prantos como a mulher.

Uma das lições tiradas por este grande drama é que, às vezes, a cura para determinadas doenças está em simples soluções, como um bom diálogo entre os membros da própria família, ao contrário de tratamentos medicinais que podem curar os males do corpo, mas jamais os da alma.

Com direção cênica de Tadeu Aguiar, o espetáculo revela o complicado desafio que é produzir um roteiro do gênero, tamanho o peso de seu contexto e ainda aliado ao formato musical, que geralmente trabalha em cima de temas mais voltados para a comédia e o romance com final feliz.

Quase Normal é uma adaptação da Broadway e sua versão original foi ovacionada por público e crítica, ganhando três prêmios Tony e um Pulitzer. A riqueza deste roteiro é tão grandiosa que, na versão brasileira encenada no Teatro FAAP, dá impressão de ser maior que o próprio elenco que encena o espetáculo. Mas a brilhante atuação da atriz Vanessa Ceroni é espetacular. Ela consegue transmitir perfeitamente seus conflitos psíquicos ao público e ainda encarar muito bem a difícil missão de cantar em tom pesado e dramático.

Sua atuação é a que mais parece estar realmente envolta na grande dramaticidade existente por trás do roteiro, ofuscando o papel de outros atores, como Carol Futuro e Victor Maia (que interpreta o namorado de Natalie), que se limitam a fazer apenas o que é delineado, sem ousar mais e sem mergulhar de cabeça no papel, que exige uma grande entrega. Vale ainda destacar a atuação de André Dias interpretando os terapeutas que cuidam de Diana.


No que tange à produção musical, que tem direção de Liliane Secco, a mistura de clássico, jazz, heavy metal e, principalmente, rock britânico (que se encaixa perfeitamente com o contexto “ilustrando musicalmente” a tensão da situação vivida no palco), se dá de forma espetacular. Em cartaz no Teatro FAAP, em São Paulo, a peça permanece apenas até o dia 12 de maio, por isso ainda dá tempo de conferí-lo e descobrir que para ser feliz não é preciso ser normal, apenas quase normal.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas