quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Camille e Rodin



Um espetáculo que mistura romance, paixão extrema, obsessão e até mesmo insanidade tentando encontrar o equilíbrio entre a sutileza e os mais desvairados sentimentos: assim é Camille e Rodin, peça que traz para os palcos a conturbada história de amor entre dois escultores franceses, baseada em fatos reais.

Leopoldo Pachecco interpreta Auguste Rodin (1840 – 1917), um homem aparentemente calmo e sutil, que passa horas em sua galeria esculpindo obras encomendadas, principalmente, pela classe elitista. Sua rotina muda completamente quando ele conhece a jovem Camille Claudel (1864-1943) – papel de Melissa Vettore – que vai até Paris para aprender a esculpir com Rodin.

Não demora muito para surgir um clima de romance no ar e os dois artistas se envolverem um pelo outro. Mas o sentimento é conturbado por uma série de conflitos não só internos como externos, já que àquela época ainda predominava uma sociedade de concepções machistas, que concebiam à mulher apenas as funções domésticas e de proteção e cuidado familiar.

Sendo assim, Camille se vê obrigada a enfrentar diversos entraves na concretização de seu objetivo de se tornar uma escultora na condição de mulher, inclusive com o próprio Rodin, a quem ela culpa por retardar o ensino artístico a ela. Para Camille, ele tem a consciência interna de que ela não poderá ser uma grande artista, apesar de encorajá-la a tal feito, simplesmente por ser mulher. Revelações inesperadas também contribuirão para que a jovem francesa se exalte gradativamente com Rodin.

Dirigido por Elias Andreato, a peça narra a trama em dois tempos, trazendo o passado e o presente simultaneamente. Esta é uma forma temporal que vem cada vez mais sendo trabalhada pelos diretores teatrais e parece atrair muito mais a atenção do público, que precisa ficar atento às cenas de momentos distintos que parecem se entrelaçar na trama.

O espetáculo é totalmente humanizado pelos conflitos sentimentais que perpetuam a vida do ser humano de forma extremada ou suavizada. Durante os 75 minutos de duração da peça, a personagem Camille revela o crescimento gradativo, dentro de si, de um amor obsessivo por Rodin. A obsessão é tamanha que atinge a sanidade da jovem e a coloca em um verdadeiro estado de transe em diversos momentos.

A disputa de poder com o escultor francês por parte de Camille, que insiste em admitir que Rodin teme ser superado pelo sucesso da moça e por isso ele tenta ocultá-la em sua galeria, começa a ganhar tal ênfase de modo que, mesmo nos momentos em que tem seu talento reconhecido pela crítica, ela viaja entre realidade e fantasia criticando e se exaltando exageradamente com o escultor.

Se Camille se destaca pelo seu tom explosivo, Rodin se caracteriza pelo oposto, aparentando um semblante brando e sutil, que se transforma somente quando a escultora ultrapassa todos os limites dele.

A atriz Melissa Vettore está excelente em seu papel, conduzindo a plateia para os momentos de insanidade da personagem, cuja mente está tomada por deturpações. Seu talento não ofusca o brilhantismo de Leopoldo Pacheco, que se entrega aos sentimentos exatamente opostos aos da personagem de Melissa interiorizando suas emoções e tentando sempre abrandá-las.  

O espetáculo permanece em cartaz até 31 de Março no teatro do MASP.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Lincoln



Liderando o número de indicações ao Oscar (a produção concorre em 12 categorias incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Ator para Daniel Day Lewis) Lincoln tem todos os atributos que podem levá-lo a ser o destaque da noite de premiações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Dirigido por Steven Spielberg, o filme retrata a luta de um dos mais famosos e renomados presidentes dos EUA, Abraham Lincoln (Daniel Day Lewis), e sua quase incessante e dificílima luta em conseguir no Congresso Norte-Americano a aprovação da 13ª Emenda, abolindo de vez a escravidão.

A trama se passa entre 1864 e 1865, durante a Guerra da Secessão (guerra civil ocorrida nos EUA, entre 1861 e 1865), fundamentada basicamente na luta entre 11 Estados Confederados do Sul latifundiário e aristocrata e os Estados do Norte industrializado. Em 1860, ao assumir a presidência, Lincoln recebeu um país dividido –– no qual a Região Norte estava amplamente desenvolvida e destacada economicamente, enquanto no Sul concentrava-se um regime basicamente agrário que se sustentava por meio do trabalho escravo.

Em 1861 - quando os EUA possuíam 19 estados livres, nos quais a escravidão era proibida, e 15 estados onde era permitida – 11 estados escravagistas do Sul declararam secessão da União e deram início à guerra oficialmente quando atacaram um posto militar norte-americano da Carolina do Sul. O conflito resultou na morte de vários soldados dos EUA e foi base estratégica para o plano de Lincoln de abolir a escravidão.

Para conseguir a aprovação da emenda, o presidente norte-americano precisaria do apoio de republicanos e também de alguns democratas – os quais eram diametralmente contra a libertação dos escravos – lançando mão de uma série de diálogos e acordos muito bem elaborados e estrategicamente pensados, entre os quais o argumento que a abolição contribuiria para o fim da guerra civil.

Embora no começo a produção possa parecer algo extensa e cansativa, já que é necessário mostrar ao espectador o contexto da trama, fundamentada quase exclusivamente no diálogo, ela nos envolve gradativamente conforme ganha corpo a ambição de Lincoln em concretizar seu objetivo.

A produção de Spielberg – diretor recordista em filmes na lista das 100 maiores tramas de todos os tempos – que sempre priorizou filmes que trabalhem a emoção mesclada à ação e aos efeitos especiais que deslumbram os olhos da plateia, não é o seu tipo de trabalho cinematográfico mais característico. Em Lincoln, o que prevalece durante suas quase três horas de exibição são a riqueza e intensidade do diálogo político, que não conta uma biografia e o drama pessoal nela embutida, mas uma mudança crucial para a nação estadunidense e todos os esforços despendidos para alcançá-la – inclusive a de bens e vidas humanas.

Não obstante, o diretor arrasa e faz um trabalho praticamente impecável – que talvez peque apenas no final com um pequeno prolongamento um tanto desnecessário, mas que certamente não será nenhum entrave para impedir o filme de conquistar os principais prêmios do Oscar – Daniel Day Lewis, por exemplo, tem grandes chances de conquistar a estatueta de Melhor Ator. Ele está incrível em seu papel ao interpretar um Lincoln que criou uma espécie de “armadura” para aparecer em público, interiorizando ao máximo todas as suas emoções e sentimentos diante da pressão que sofria em razão de seu cargo, e de ser obrigado a representar para o povo uma imagem que não necessariamente era a sua.

A sutileza e a frieza do protagonista também estão presentes na forma como a história é narrada, já que Spielberg procura enaltecer o grande momento histórico e conduzir a trama sob o prisma analítico de Lincoln. Vale a pena conferir o filme e tirar suas próprias conclusões.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Toda Nudez Será Castigada



Escrita por um dos maiores dramaturgos brasileiros, famoso por escrever peças polêmicas, onde os personagens expõem as feridas mais agudas e pesadas da sociedade, Nelson Rodrigues, a peça Toda Nudez Será Castigada convida a plateia a fazer uma profunda reflexão do ser humano, despido de sua camada de superficialidades, chegando ao íntimo do inconsciente habitado pelos mais perversos pensamentos e habilidades.

A peça narra a história de um viúvo chamado Herculano (Leonardo Ventura), que se apaixona pela prostituta Geni (Ondina Clais Castilho), com quem vive uma conturbada relação de amor, sexo, aproximação e distanciamento ao mesmo tempo. Os dois pretendem se casar, mas para isso terão de lidar com um grande entrave que é o filho de Herculano, Serginho (Lucas Rodrigues), um garoto que tem aversão ao sexo e fez seu pai lhe prometer que não se envolveria com mais ninguém depois de ficar viúvo.

Três tias solteironas e de ideologias extremamente puritanas passam todo o tempo ao lado do garoto influenciando sua mente ainda mais, para que Herculano jamais ao menos olhe para outra mulher. O viúvo ainda não contava com as artimanhas de seu irmão Patrício (Marcos de Andrade) - um homem de presença, cuja aparência esconde uma gigantesca hipocrisia dentro de si – que no fundo queria ver Herculano destruído. De olho na riqueza financeira do irmão, Patrício faz de tudo para prejudicá-lo de modo sutil sem que ele perceba.

Com a direção do talentoso Antunes Filho e elenco pertencente ao Grupo de Teatro Macunaíma, a peça segue a linha original rodriguiana e tem como destaque a atuação da atriz Ondina Clais, quem confere uma vivacidade estupenda ao seu personagem, de modo a reduzir a presença em cena de outros atores em alguns momentos.

Não há como não perceber a “mão rodriguiana” presente em palco durante os 60 minutos de espetáculo. A exposição íntima e reveladora dos personagens revelam as fraquezas mais árduas e provocantes do ser humano, capazes de ferir e dilacerar almas, apenas intensificando o gênero tragédia da peça. Vale ressaltar o fato da personagem de Geni ser representada, nesta direção de Antunes, como um fantasma, exteriorizando a representação de seu subconsciente.

Uma mescla de sentimentos e angústias forma uma história que trabalha o maniqueísmo e nos convida a refletir as ambiguidades apresentadas pelo autor. Durante a apresentação é possível fazer uma análise invasiva do inconsciente despido de todas as superficialidades, que dominam o consciente do ser humano, revelando seu verdadeiro eu.

Em 2012 Nelson Rodrigues completaria 100 anos. Suas obras continuam e certamente continuarão por muitos anos a serem encenadas, lidas e analisadas por gerações de todo o mundo.

Toda Nudez Será Castigada permanece em cartaz até 3 de março no SESC Consolação em São Paulo.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Django Livre



Personagens sarcásticos, uma boa dose de humor irônico, cenas de violência dotadas de muito sangue e uma mescla de gêneros que faz a plateia envolver-se instantaneamente em um filme que lança mão de suspense, drama e comédia: assim são as produções dirigidas por Quentin Tarantino, considerado um verdadeiro mestre da violência moderna cinematográfica.

Depois de se consagrar dirigindo grandes produções como Kill Bill (2003), Pulp Fiction (1994) e Bastardos Inglórios (2009), ele volta aos telões com Django Livre, que tem tudo para ser mais um sucesso e apenas confirma uma grande injustiça cometida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que excluiu Tarantino da indicação ao Oscar de Melhor Direção deixando cinéfilos e não cinéfilos boquiabertos.

A trama se passa nos tempos de escravidão estadunidense, em 1858, três anos antes da Guerra Civil Americana. Django (papel de Jammie Fox) é um escravo que se torna companheiro do Dr Schultz (Christoph Waltz) – caçador de recompensas – a partir do momento que este o compra, prometendo-lhe a liberdade se aquele o ajudar a encontrar três delinquentes com as cabeças postas a prêmio.

Cumprida a tarefa, Django pretende resgatar sua mulher Broomhilda (Kerry Washington), que é escrava do poderoso fazendeiro Calvin Candie (interpretado por Leonardo di Caprio), famoso por promover lutas fatais entre negros. Para isso, o protagonista da história e o Dr Schultz se tornam parceiros inseparáveis na busca e concretização desta missão. Assim que a dupla chega à fazenda onde se encontra a esposa de Django, os dois executam um plano estratégico a fim de enganar Candie e tentar comprar a liberdade de Broomhilda.

Mas vários são os obstáculos para que tudo não saia conforme o planejado, entre eles a intromissão de um escravo de confiança (Samuel L. Jackson) de Candie que desconfia de Django e Schultz desde o primeiro momento em que os vê.

Com um elenco impecável, o talentoso Christoph Waltz é quem rouba a cena em toda a primeira parte do filme, interpretando um caçador de recompensas extremamente perspicaz, sarcástico e desafiador. O ator está incrível em seu papel, conseguindo incorporar um personagem cômico e que enfrenta quem for preciso, usando para isso não apenas suas armas letais, como palavras sábias e confrontadoras. Não é a toa que Waltz ganhou o Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante e concorre ao Oscar na mesma categoria.

Outro ator que não deixa a desejar e está completamente entregue ao papel é Leonardo di Caprio, cujo personagem é dotado de um sarcasmo similar ao presente no caçador de recompensas. Caprio parece mesmo se destacar muito mais quando moldado pelos grandes diretores – um exemplo foi sua brilhante interpretação em A Ilha do Medo, de Martin Scorcese – e com Tarantino não faz diferente.

Não se pode deixar de ressaltar a destacada atuação de Samuel L. Jackson, quem também rouba a cena em vários momentos centralizando toda a atenção da plateia para si.

Django Livre não é somente um filme que retrata a escravidão e a diferença de comportamentos entre os próprios escravos conforme sua condição serviçal, mas também se classifica como faroeste espaguete – termo atribuído à forma como os italianos fazem filmes western com base na própria leitura hollywoodiana. E cenas clássicas do cinema como o beijo romântico de felizes para sempre, a conversa de figurões sentados em suas poltronas tomando drinques e fumando cigarros – entre outros – fazem jus ao termo.

Aliada à grande atuação do elenco, a produção também conta com efeitos especiais de explosões e tiroteios que surpreendem e divertem a plateia ao estilo Tarantino de fazer cinema. Outro ponto forte é trilha sonora, que mescla vários gêneros musicais passando de clássicos marcantes aos estilos pop atuais.

Vencedor do Globo de Ouro nas categorias Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro, o longa recebeu 5 indicações ao Oscar incluindo Melhor Filme , Roteiro Original e Ator Coadjuvante.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi




Baseado na obra literária do escritor canadense Yann Martel, As Aventuras de Pi traz uma combinação de momentos emocionantes e efeitos visuais deslumbrantes que deixam os telespectadores com um olhar travado diante das telas.

O filme narra a história de Pi, um homem de meia idade que vive no Canadá e conta suas aventuras para um escritor, que pretende escrever um livro sobre elas. O escritor não acredita em Deus, mas dizem a ele que a história de Pi seria tão surpreendente e inacreditável que ele poderia até mesmo mudar seus conceitos sobre a existência divina. Então ele passa a ouvir atentamente tudo o que Pi descreve sobre sua infância e adolescência.

Nascido no sudeste da Índia, Pi morava com seus pais e um irmão mais velho e foi obrigado a se mudar com a família para o Canadá por decisão de seu pai, quem, após ser avisado pela prefeitura que não receberia mas incentivos fiscais para cuidar do zoológico do qual ele era proprietário, toma a decisão da mudança.

O garoto então embarca com a família em um navio cargueiro junto com uma hiena, uma zebra, um orangotango e um tigre que viviam no zoológico e seriam vendidos no Canadá. Mas a tragédia toma conta da família de Pi quando a embarcação naufraga em razão de uma tempestade e apenas o protagonista da história consegue  se salvar, junto com o tigre em um bote salva-vidas.

Entretanto, as aventuras trágicas estão apenas começando, uma vez que o garoto passa dias em alto mar sem avistar ninguém, completamente abalado por ter perdido sua família e ainda se vê obrigado a elaborar diversas estratégias para dividir o mesmo espaço com seu companheiro felino, que parece estar prestes a querer devorá-lo a qualquer momento.

Com certos toques surrealistas presentes, como por exemplo, tanto na vivacidade das cores, como no intenso azul que quase não delimita a divisão entre céu e mar, o espetáculo visual se torna inesquecível como poucas produções o fazem. O diretor da trama, o tailandês Ang Lee - de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), filme que narra a história de um romance homossexual entre dois jovens vaqueiros e teve oito indicações ao Oscar levando os prêmios de melhor direção, roteiro adaptado e trilha-sonora – acerta não só na reprodução das imagens do naufrágio, sobrevivência de Pi e a digitalização de um tigre, como nas comoventes mensagens trazidas pela narração, que envolvem preceitos religiosos e o poder da crença em Deus.

As revelações feitas no final da trama levam os espectadores a refletir profundamente sobre os acontecimentos. Para enriquecer a imersão do público no naufrágio de Pi, o filme foi muito bem projetado em 3D de modo até mesmo a causar sustos na plateia .

As Aventuras de Pi é o segundo colocado na lista de indicações ao Oscar. A produção concorre em 11 categorias incluindo melhor filme.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Argo




Um filme de tirar o fôlego da plateia com mescla de ação e suspense em cenas muito bem produzidas. Assim é Argo, trama baseada no livro de Antônio Mendez, que narra sua própria história real: ele foi um agente da CIA indicado em 1979 para uma dificílima missão: salvar seis embaixadores norte-americanos ameaçados de morte pelo povo iraniano. O motivo da ameaça se deve ao fato dos Estados Unidos concederem asilo político a Reza Pahlevi - foi Xá do Irã, entre 16 de Setembro de 1941 e 11 de Fevereiro de 1979.

Tal atitude despertou uma fúria nos cidadãos iranianos fazendo com que vários deles invadissem a embaixada norte-americana, localizada em Teerã – capital do Irã. Diante da tamanha euforia, seis dos embaixadores dos EUA conseguiram fugir para a casa do embaixador canadense.

Palco vivo da trama, o Irã foi, em grande parte do século XX, aliado das nações ocidentais, que se voltaram ao Oriente Médio interessadas no petróleo. O ouro negro, que deveria ser fonte de riqueza e desenvolvimento do povo, foi o pomo da discórdia que levou a população explorada e miserável a revoltar-se, depondo o líder iraniano, Xá Reza Pahlevi, e elegendo o progressista primeiro ministro Mohamed Mossadegui, que conduziu o povo a uma série de conquistas e benefícios, que contrariaram o lucro fácil baseado na exploração do Irã pelas petrolíferas inglesas e americanas.

Com ampla articulação do governo imperialista inglês e da CIA, estes financiaram um golpe de estado que reconduziu Pahlevi ao poder iraniano até 1978, quando - insatisfeitos com a crise econômica que assolava o país, a repressão política, a crescente corrupção e as reformas pró-Ocidente - esquerdistas, liberais e muçulmanos tradicionalistas uniram-se ao aiatolá Khomeini para derrubar o governo do Xá Reza Pahlevi. Desde então o país tornou-se uma República Islâmica.

Para salvar os cidadãos norte – americanos presos no Irã, membros da alta cúpula de poder dos EUA se reúnem em busca de uma solução. É neste momento que entra em cena Mendez (interpretado, no filme, por Bem Afleck, que também dirige a produção). - O agente da CIA sugere se passar por um produtor de cinema para recuperar os refugiados do Irã.

Entre a descrença de muitos quanto ao sucesso do plano e a falta de alternativas viáveis para a execução da missão, a ideia de Mendez é aceita e ele vai até Hollywood para conseguir as parcerias e levantar todo o material necessário que o ajudará a assumir o papel de um produtor cinematográfico canadense de um falso filme de ficção científica chamado Argo.

Depois de conseguir tudo o que precisa, ele embarca para o Irã sob pretexto de avaliar cenários para gravar algumas cenas do filme no país e consegue encontrar os refugiados norte-americanos. Mendez explica a eles quem é e o objetivo de sua missão e tenta convencê-los a assumirem falsos papeis na equipe de preparação da produção do filme Argo e assim poderem deixar o país. Após certa resistência de alguns deles temendo que o agente da CIA fosse um iraniano tentando capturá-los, já que as ruas de Teerã estavam praticamente tomadas por iranianos revoltados, dispostos a acabar com os embaixadores, acabam aceitando a proposta de Mendez, pois já não veem outra solução para se safarem da perseguição iraniana.

A partir daí o suspense ganha cada vez mais força se prolongando até ao final do filme sem aliviar a plateia, que fica sob tensão, tamanho o envolvimento com a trama proporcionado pelo diretor. Afleck acerta em cheio ao optar por diversas filmagens em travelling (movimento de câmera para acompanhar o deslocamento de um objeto, personagem ou ação a fim de provocar nos telespectadores uma sensação mais próxima da realidade) trazendo para o público o mesmo campo de visão de cada um dos personagens que tentam sair do Irã sem serem descobertos.

A preferência por mais filmagens em planos fechados, repletos de closes nos personagens, no lugar de planos gerais que ofereçam uma perspectiva visual de todo o cenário em que se passam as cenas, contribui para aumentar a tensão e se aproximar ainda mais da realidade, para que o público sinta o temor dos embaixadores na expectativa do que irá acontecer sem ter a completa noção se serão pegos ou não.
Além do excelente trabalho de direção, Afleck se destaca pela sua atuação na trama passando claramente a caracterização fria e sutil do personagem, que demonstra estar totalmente centrado em seu objetivo, fazendo jus a profissão de agente da CIA.

O filme recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. A premiação de entrega das estatuetas acontece no dia 24 de fevereiro.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas
Colaboração: Sérgio Eduardo Nadur

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Hobbit - Uma jornada inesperada



Depois do tremendo sucesso mundial da trilogia O Senhor dos Anéis, que rendeu milhões de dólares e posicionou os dois últimos filmes entre as 15 maiores bilheterias de todos os tempos – além disso, a terceira produção chamada O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), conquistou 11 Oscar, se tornando recordista em estatuetas, ao lado de Ben Hur (1959) e Titanic (1997) – o diretor neozelandês Peter Jackson resgata a história dos hobbits e sua saga para os telões em O Hobbit – Uma Jornada Inesperada.

A trama faz parte de uma nova trilogia que terminará em 2014 e é baseada no livro infanto-juvenil O Hobbit, elaborado pelo escritor, professor e filólogo britânico  J.R.R Tolkien  publicado pela primeira vez em 1937. Dando continuidade à publicação anterior, Tolkien escreveu a saga O Senhor dos Anéis, dividida em três volumes lançados entre 1954 e 1955. O sucesso desta trilogia fez com que ela fosse traduzida em mais de 40 idiomas e gerasse uma venda de cerca de 160 milhões de cópias.

Justamente face a tamanho sucesso e à repercussão mundial que Peter Jackson deve ter priorizado a trilogia, produzindo-a primeiro no cinema. Agora, consciente do quanto a saga do anel continua a atrair fãs por todo o planeta é que o diretor resolve voltar ainda mais no tempo e apresentar para o público como o anel foi parar na mão de um hobbit pela primeira vez.

A primeira parte de O Hobbit conta a história de como o pequeno Bilbo Bolseiro (sessenta anos mais jovem do que na trama O Senhor dos Anéis), interpretado por Martin Freeman, encontra o anel que deverá ser destruído na trilogia seguinte. O protagonista da história embarca numa jornada repleta de aventuras e surpresas, marcadas pela aparição de seres horrendos como os orcs, ao lado do mago Gandalf (papel de Ian McKellen) e um grupo de anões ambulantes que pretendem recuperar seu reino depois de derrotarem o dragão que o destruiu.

No trajeto, Bilbo encontra Gollum, personagem que já havia se consagrado nos telões durante os filmes anteriores de Jackson e não faz diferente neste enredo, mantendo o mesmo estilo ambíguo, mesclando um ar de crueldade, medo e dúvidas com seu jeito desengonçado de ser, que chega a arrancar risadas da plateia.

Mantendo a mesma impecabilidade no quesito efeito visual das produções anteriores relacionadas à saga do anel, Peter Jackson surpreende os olhares do público com cada transformação de cena e com momentos inesperados que levam os telespectadores a se assustarem junto com os personagens.  

A grandiosidade dos efeitos, juntamente com a atuação dos atores, que não deixam a desejar, confere um excelente desenrolar para a trama que, apesar de não conseguir ultrapassar o impacto positivista da trilogia anterior causada na plateia – tamanho o enriquecimento e envolvimento que a história trouxe consigo, se consagrando por todo o mundo – este novo filme não fica muito atrás das produções anteriores.

Todavia, o diretor pode ter pecado ao tentar transformar um livro de 300 páginas em uma trilogia cinematográfica, pois fica extremamente perceptível a presença de cenas prolixas que se estendem cansativamente, visando preencher algumas sequências de tempo.

Entretanto, no contexto geral, vale a pena conferir a jornada de Bilbo Bolseiro nesta primeira parte da trama, que possui quase três horas de duração e conforme se desenrola vai prendendo a atenção do público até chegar a um final menos prolixo e digno de elogios, principalmente pelas ações, agregadas aos efeitos visuais, que agora também podem ser vistos em 3D. Vamos aguardar os próximos lançamentos para saber o que Peter Jackson nos reserva. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas