segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Django Livre



Personagens sarcásticos, uma boa dose de humor irônico, cenas de violência dotadas de muito sangue e uma mescla de gêneros que faz a plateia envolver-se instantaneamente em um filme que lança mão de suspense, drama e comédia: assim são as produções dirigidas por Quentin Tarantino, considerado um verdadeiro mestre da violência moderna cinematográfica.

Depois de se consagrar dirigindo grandes produções como Kill Bill (2003), Pulp Fiction (1994) e Bastardos Inglórios (2009), ele volta aos telões com Django Livre, que tem tudo para ser mais um sucesso e apenas confirma uma grande injustiça cometida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que excluiu Tarantino da indicação ao Oscar de Melhor Direção deixando cinéfilos e não cinéfilos boquiabertos.

A trama se passa nos tempos de escravidão estadunidense, em 1858, três anos antes da Guerra Civil Americana. Django (papel de Jammie Fox) é um escravo que se torna companheiro do Dr Schultz (Christoph Waltz) – caçador de recompensas – a partir do momento que este o compra, prometendo-lhe a liberdade se aquele o ajudar a encontrar três delinquentes com as cabeças postas a prêmio.

Cumprida a tarefa, Django pretende resgatar sua mulher Broomhilda (Kerry Washington), que é escrava do poderoso fazendeiro Calvin Candie (interpretado por Leonardo di Caprio), famoso por promover lutas fatais entre negros. Para isso, o protagonista da história e o Dr Schultz se tornam parceiros inseparáveis na busca e concretização desta missão. Assim que a dupla chega à fazenda onde se encontra a esposa de Django, os dois executam um plano estratégico a fim de enganar Candie e tentar comprar a liberdade de Broomhilda.

Mas vários são os obstáculos para que tudo não saia conforme o planejado, entre eles a intromissão de um escravo de confiança (Samuel L. Jackson) de Candie que desconfia de Django e Schultz desde o primeiro momento em que os vê.

Com um elenco impecável, o talentoso Christoph Waltz é quem rouba a cena em toda a primeira parte do filme, interpretando um caçador de recompensas extremamente perspicaz, sarcástico e desafiador. O ator está incrível em seu papel, conseguindo incorporar um personagem cômico e que enfrenta quem for preciso, usando para isso não apenas suas armas letais, como palavras sábias e confrontadoras. Não é a toa que Waltz ganhou o Globo de Ouro como melhor ator coadjuvante e concorre ao Oscar na mesma categoria.

Outro ator que não deixa a desejar e está completamente entregue ao papel é Leonardo di Caprio, cujo personagem é dotado de um sarcasmo similar ao presente no caçador de recompensas. Caprio parece mesmo se destacar muito mais quando moldado pelos grandes diretores – um exemplo foi sua brilhante interpretação em A Ilha do Medo, de Martin Scorcese – e com Tarantino não faz diferente.

Não se pode deixar de ressaltar a destacada atuação de Samuel L. Jackson, quem também rouba a cena em vários momentos centralizando toda a atenção da plateia para si.

Django Livre não é somente um filme que retrata a escravidão e a diferença de comportamentos entre os próprios escravos conforme sua condição serviçal, mas também se classifica como faroeste espaguete – termo atribuído à forma como os italianos fazem filmes western com base na própria leitura hollywoodiana. E cenas clássicas do cinema como o beijo romântico de felizes para sempre, a conversa de figurões sentados em suas poltronas tomando drinques e fumando cigarros – entre outros – fazem jus ao termo.

Aliada à grande atuação do elenco, a produção também conta com efeitos especiais de explosões e tiroteios que surpreendem e divertem a plateia ao estilo Tarantino de fazer cinema. Outro ponto forte é trilha sonora, que mescla vários gêneros musicais passando de clássicos marcantes aos estilos pop atuais.

Vencedor do Globo de Ouro nas categorias Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Roteiro, o longa recebeu 5 indicações ao Oscar incluindo Melhor Filme , Roteiro Original e Ator Coadjuvante.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi




Baseado na obra literária do escritor canadense Yann Martel, As Aventuras de Pi traz uma combinação de momentos emocionantes e efeitos visuais deslumbrantes que deixam os telespectadores com um olhar travado diante das telas.

O filme narra a história de Pi, um homem de meia idade que vive no Canadá e conta suas aventuras para um escritor, que pretende escrever um livro sobre elas. O escritor não acredita em Deus, mas dizem a ele que a história de Pi seria tão surpreendente e inacreditável que ele poderia até mesmo mudar seus conceitos sobre a existência divina. Então ele passa a ouvir atentamente tudo o que Pi descreve sobre sua infância e adolescência.

Nascido no sudeste da Índia, Pi morava com seus pais e um irmão mais velho e foi obrigado a se mudar com a família para o Canadá por decisão de seu pai, quem, após ser avisado pela prefeitura que não receberia mas incentivos fiscais para cuidar do zoológico do qual ele era proprietário, toma a decisão da mudança.

O garoto então embarca com a família em um navio cargueiro junto com uma hiena, uma zebra, um orangotango e um tigre que viviam no zoológico e seriam vendidos no Canadá. Mas a tragédia toma conta da família de Pi quando a embarcação naufraga em razão de uma tempestade e apenas o protagonista da história consegue  se salvar, junto com o tigre em um bote salva-vidas.

Entretanto, as aventuras trágicas estão apenas começando, uma vez que o garoto passa dias em alto mar sem avistar ninguém, completamente abalado por ter perdido sua família e ainda se vê obrigado a elaborar diversas estratégias para dividir o mesmo espaço com seu companheiro felino, que parece estar prestes a querer devorá-lo a qualquer momento.

Com certos toques surrealistas presentes, como por exemplo, tanto na vivacidade das cores, como no intenso azul que quase não delimita a divisão entre céu e mar, o espetáculo visual se torna inesquecível como poucas produções o fazem. O diretor da trama, o tailandês Ang Lee - de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), filme que narra a história de um romance homossexual entre dois jovens vaqueiros e teve oito indicações ao Oscar levando os prêmios de melhor direção, roteiro adaptado e trilha-sonora – acerta não só na reprodução das imagens do naufrágio, sobrevivência de Pi e a digitalização de um tigre, como nas comoventes mensagens trazidas pela narração, que envolvem preceitos religiosos e o poder da crença em Deus.

As revelações feitas no final da trama levam os espectadores a refletir profundamente sobre os acontecimentos. Para enriquecer a imersão do público no naufrágio de Pi, o filme foi muito bem projetado em 3D de modo até mesmo a causar sustos na plateia .

As Aventuras de Pi é o segundo colocado na lista de indicações ao Oscar. A produção concorre em 11 categorias incluindo melhor filme.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Argo




Um filme de tirar o fôlego da plateia com mescla de ação e suspense em cenas muito bem produzidas. Assim é Argo, trama baseada no livro de Antônio Mendez, que narra sua própria história real: ele foi um agente da CIA indicado em 1979 para uma dificílima missão: salvar seis embaixadores norte-americanos ameaçados de morte pelo povo iraniano. O motivo da ameaça se deve ao fato dos Estados Unidos concederem asilo político a Reza Pahlevi - foi Xá do Irã, entre 16 de Setembro de 1941 e 11 de Fevereiro de 1979.

Tal atitude despertou uma fúria nos cidadãos iranianos fazendo com que vários deles invadissem a embaixada norte-americana, localizada em Teerã – capital do Irã. Diante da tamanha euforia, seis dos embaixadores dos EUA conseguiram fugir para a casa do embaixador canadense.

Palco vivo da trama, o Irã foi, em grande parte do século XX, aliado das nações ocidentais, que se voltaram ao Oriente Médio interessadas no petróleo. O ouro negro, que deveria ser fonte de riqueza e desenvolvimento do povo, foi o pomo da discórdia que levou a população explorada e miserável a revoltar-se, depondo o líder iraniano, Xá Reza Pahlevi, e elegendo o progressista primeiro ministro Mohamed Mossadegui, que conduziu o povo a uma série de conquistas e benefícios, que contrariaram o lucro fácil baseado na exploração do Irã pelas petrolíferas inglesas e americanas.

Com ampla articulação do governo imperialista inglês e da CIA, estes financiaram um golpe de estado que reconduziu Pahlevi ao poder iraniano até 1978, quando - insatisfeitos com a crise econômica que assolava o país, a repressão política, a crescente corrupção e as reformas pró-Ocidente - esquerdistas, liberais e muçulmanos tradicionalistas uniram-se ao aiatolá Khomeini para derrubar o governo do Xá Reza Pahlevi. Desde então o país tornou-se uma República Islâmica.

Para salvar os cidadãos norte – americanos presos no Irã, membros da alta cúpula de poder dos EUA se reúnem em busca de uma solução. É neste momento que entra em cena Mendez (interpretado, no filme, por Bem Afleck, que também dirige a produção). - O agente da CIA sugere se passar por um produtor de cinema para recuperar os refugiados do Irã.

Entre a descrença de muitos quanto ao sucesso do plano e a falta de alternativas viáveis para a execução da missão, a ideia de Mendez é aceita e ele vai até Hollywood para conseguir as parcerias e levantar todo o material necessário que o ajudará a assumir o papel de um produtor cinematográfico canadense de um falso filme de ficção científica chamado Argo.

Depois de conseguir tudo o que precisa, ele embarca para o Irã sob pretexto de avaliar cenários para gravar algumas cenas do filme no país e consegue encontrar os refugiados norte-americanos. Mendez explica a eles quem é e o objetivo de sua missão e tenta convencê-los a assumirem falsos papeis na equipe de preparação da produção do filme Argo e assim poderem deixar o país. Após certa resistência de alguns deles temendo que o agente da CIA fosse um iraniano tentando capturá-los, já que as ruas de Teerã estavam praticamente tomadas por iranianos revoltados, dispostos a acabar com os embaixadores, acabam aceitando a proposta de Mendez, pois já não veem outra solução para se safarem da perseguição iraniana.

A partir daí o suspense ganha cada vez mais força se prolongando até ao final do filme sem aliviar a plateia, que fica sob tensão, tamanho o envolvimento com a trama proporcionado pelo diretor. Afleck acerta em cheio ao optar por diversas filmagens em travelling (movimento de câmera para acompanhar o deslocamento de um objeto, personagem ou ação a fim de provocar nos telespectadores uma sensação mais próxima da realidade) trazendo para o público o mesmo campo de visão de cada um dos personagens que tentam sair do Irã sem serem descobertos.

A preferência por mais filmagens em planos fechados, repletos de closes nos personagens, no lugar de planos gerais que ofereçam uma perspectiva visual de todo o cenário em que se passam as cenas, contribui para aumentar a tensão e se aproximar ainda mais da realidade, para que o público sinta o temor dos embaixadores na expectativa do que irá acontecer sem ter a completa noção se serão pegos ou não.
Além do excelente trabalho de direção, Afleck se destaca pela sua atuação na trama passando claramente a caracterização fria e sutil do personagem, que demonstra estar totalmente centrado em seu objetivo, fazendo jus a profissão de agente da CIA.

O filme recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo melhor filme. A premiação de entrega das estatuetas acontece no dia 24 de fevereiro.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas
Colaboração: Sérgio Eduardo Nadur

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Hobbit - Uma jornada inesperada



Depois do tremendo sucesso mundial da trilogia O Senhor dos Anéis, que rendeu milhões de dólares e posicionou os dois últimos filmes entre as 15 maiores bilheterias de todos os tempos – além disso, a terceira produção chamada O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003), conquistou 11 Oscar, se tornando recordista em estatuetas, ao lado de Ben Hur (1959) e Titanic (1997) – o diretor neozelandês Peter Jackson resgata a história dos hobbits e sua saga para os telões em O Hobbit – Uma Jornada Inesperada.

A trama faz parte de uma nova trilogia que terminará em 2014 e é baseada no livro infanto-juvenil O Hobbit, elaborado pelo escritor, professor e filólogo britânico  J.R.R Tolkien  publicado pela primeira vez em 1937. Dando continuidade à publicação anterior, Tolkien escreveu a saga O Senhor dos Anéis, dividida em três volumes lançados entre 1954 e 1955. O sucesso desta trilogia fez com que ela fosse traduzida em mais de 40 idiomas e gerasse uma venda de cerca de 160 milhões de cópias.

Justamente face a tamanho sucesso e à repercussão mundial que Peter Jackson deve ter priorizado a trilogia, produzindo-a primeiro no cinema. Agora, consciente do quanto a saga do anel continua a atrair fãs por todo o planeta é que o diretor resolve voltar ainda mais no tempo e apresentar para o público como o anel foi parar na mão de um hobbit pela primeira vez.

A primeira parte de O Hobbit conta a história de como o pequeno Bilbo Bolseiro (sessenta anos mais jovem do que na trama O Senhor dos Anéis), interpretado por Martin Freeman, encontra o anel que deverá ser destruído na trilogia seguinte. O protagonista da história embarca numa jornada repleta de aventuras e surpresas, marcadas pela aparição de seres horrendos como os orcs, ao lado do mago Gandalf (papel de Ian McKellen) e um grupo de anões ambulantes que pretendem recuperar seu reino depois de derrotarem o dragão que o destruiu.

No trajeto, Bilbo encontra Gollum, personagem que já havia se consagrado nos telões durante os filmes anteriores de Jackson e não faz diferente neste enredo, mantendo o mesmo estilo ambíguo, mesclando um ar de crueldade, medo e dúvidas com seu jeito desengonçado de ser, que chega a arrancar risadas da plateia.

Mantendo a mesma impecabilidade no quesito efeito visual das produções anteriores relacionadas à saga do anel, Peter Jackson surpreende os olhares do público com cada transformação de cena e com momentos inesperados que levam os telespectadores a se assustarem junto com os personagens.  

A grandiosidade dos efeitos, juntamente com a atuação dos atores, que não deixam a desejar, confere um excelente desenrolar para a trama que, apesar de não conseguir ultrapassar o impacto positivista da trilogia anterior causada na plateia – tamanho o enriquecimento e envolvimento que a história trouxe consigo, se consagrando por todo o mundo – este novo filme não fica muito atrás das produções anteriores.

Todavia, o diretor pode ter pecado ao tentar transformar um livro de 300 páginas em uma trilogia cinematográfica, pois fica extremamente perceptível a presença de cenas prolixas que se estendem cansativamente, visando preencher algumas sequências de tempo.

Entretanto, no contexto geral, vale a pena conferir a jornada de Bilbo Bolseiro nesta primeira parte da trama, que possui quase três horas de duração e conforme se desenrola vai prendendo a atenção do público até chegar a um final menos prolixo e digno de elogios, principalmente pelas ações, agregadas aos efeitos visuais, que agora também podem ser vistos em 3D. Vamos aguardar os próximos lançamentos para saber o que Peter Jackson nos reserva. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Maria do Caritó




Dotada de um humor leve e bem trabalhado, a peça Maria do Caritó arranca gostosas risadas da plateia ao trazer para os palcos um pouco da cultura nordestina – que por si só, exala toda uma expressividade típica do povo da região – agregada a um teatro voltado muito mais para a exteriorização dos sentimentos, expressos no corpo e na face dos personagens de modo tão intenso que chega a ganhar toques surreais perfeitamente encaixados no contexto do enredo.

A trama narra a história de uma mulher virgem prestes a completar 50 anos, chamada Maria do Caritó (papel de Lilia Cabral), que foi prometida a “São Djalminha” após ter nascido de um parto difícil, segundo narra seu pai (Fernando Neves). Desesperada para encontrar um noivo que se apaixone por ela de verdade, a carismática solteirona se lança a todos os tipos de simpatia e promessas para Santo Antônio, a fim de encontrar sua cara metade.

Seu pai é quem acaba não gostando nada da história, alegando que a filha está cometendo uma espécie de “traição” com São Djalminha, ao pedir um marido para Santo Antônio. Além disso, ela é conhecida por toda a região onde mora como Santa Maria do Caritó por fazer “milagres” a todos que lhe pedem auxílio, mas ela mesma afirma não ser santa e que aqueles que a procuram são curados em razão da própria fé.

A suposta “santa” vê a chance de viver um grande amor quando conhece uma trupe circense que chega à cidade nordestina onde ela mora. Depois de ouvir de uma cartomante (também interpretada por Fernando Neves) que encontraria o seu “príncipe encantado” em um circo que passaria pela região, ela se apaixona por um dos artistas da trupe (papel de Eduardo Reyes) acreditando ser ele o homem de seus sonhos.

Para conquistá-lo, resolve participar do espetáculo atuando como palhaça, escondida de seu pai, que ficaria furioso se soubesse que a filha está enturmada com um grupo circense, o qual para ele é símbolo de baixaria e impureza. A partir de então, altas confusões acontecem envolvendo principalmente a protagonista, seu pai e toda a turma do circo.

Com um cenário simples, composto por vários apetrechos que fazem alusão a muitas cidades nordestinas repletas de humildes casas, cujos moradores seguem preceitos bem tradicionalistas e conservadores, o espetáculo revive essa cultura tão enraizada em nosso país através mesmo é do elenco, pois este incorpora perfeitamente os papéis, levando o público a viajar para essa humilde região nordestina habitada por personagens tão engraçados e encantadores.

Todas as inquietações sentimentais de Maria do Caritó e as confusões em que ela se mete são brilhantemente interpretadas por Lilia Cabral, que mantém o mesmo nível enérgico para o seu papel do começo ao fim, sem errar nas doses de atuação. Ela faz excelentes incorporações, encarando até mesmo imitações cômicas em determinado momento da peça, que chegam a arrancar aplausos do público.

Mas a grande atuação de Lilia não chega a ofuscar o trabalho dos demais atores que também não deixam a desejar e produzem uma atuação conjunta que se constitui no verdadeiro destaque do espetáculo. A atriz Dani Barros, por exemplo, que encara várias personagens que aparecem no caminho da protagonista durante a trama, dá um show de expressão corporal, interpretando até mesmo uma galinha desengonçada.

Escrita por Newton Moreno e dirigida por João Fonseca, a peça é uma excelente indicação para quem quiser se divertir com um humor leve e descontraído.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Hamlet




Interpretar um clássico teatral não é tarefa fácil, além de exigir de todo o elenco e direção um completo conhecimento dos personagens, enredo, contexto histórico e, principalmente, os sentimentos que surgem por trás da trama, é necessário saber identificar e transmitir ao público aquele toque especial que faz a história se consagrar por gerações e gerações alcançando a imortalidade, tamanho é o seu sucesso.

E obviamente não seria diferente com as obras de um dos maiores dramaturgos que o mundo já conheceu: William Shakespeare. Seu talento consistia em colocar o ser humano e suas fraquezas como o tema de muitas peças, passando mensagens morais de forma sutil, de acordo com os estilos classicistas e tradicionais daquela época, e, ao mesmo tempo, combinar imagens e ações que transmitiam e transmitem à plateia o verdadeiro objetivo da trama.

 É assim em Hamlet, um dos exemplos mais concretos de como Shakespeare era genioso ao expor a “podridão” da sociedade em uma mistura de ironia, mentiras, traições – entre outras fraquezas próprias do ser humano – que são suavizadas e intensificadas ao mesmo tempo.

Toda essa combinação sentimental que influencia gerações por séculos e séculos é representada nos palcos do Teatro Tuca, em São Paulo, onde Thiago Lacerda é Hamlet, o príncipe dinamarquês que, ao ser assombrado pelo fantasma do pai, (papel de Antonio Petrin) – que o alerta dizendo ter sido assassinado pelo seu próprio irmão Cláudio (Eduardo Smerjian), tio de Hamlet, para se tornar rei da Dinamarca – pensa numa forma de vingá-lo para alívio da alma de seu pai.

Ao se deparar com sua mãe (Selma Egrei) se casando com Cláudio, Hamlet se desespera ainda mais, pois não aceita que ela se case com o tio, passado tão pouco tempo da morte de seu verdadeiro marido. Então o príncipe pensa em uma forma de descobrir se Cláudio é realmente o assassino para, a partir daí, perpetrar sua vingança.

O genial toque shakesperiano ocorre quando o príncipe dinamarquês finge estar louco para confundir os integrantes do reino que convivem com ele, conseguindo assim revelar, frente à plateia, a verdadeira personalidade de muitos personagens que vivem sob aparências. Ele chega até mesmo a fingir estar apaixonado por Ofélia (Anna Guilhermina), a filha de Polônio (Roney Fachini), o conselheiro-chefe do rei Cláudio, para que enquanto os outros atribuam a sua insanidade ao amor não correspondido da garota, ele possa cumprir suas metas e revelar os segredos mais profundos escondidos naquele reino.

Hamlet é o exemplo típico de peça que exige de toda a equipe teatral o desafio de encontrar a dose certa de interpretação para se imergir nos personagens, de modo que porcentagens mínimas de excessos ou reduções interpretativas se desviam do propósito da peça e deixam de ter o caráter shakesperiano. Mas Lacerda parece ter encontrado o tom certo do seu Hamlet, revelando à plateia toda a intensidade e vivacidade do personagem.

Apesar de não ousar em cena, pois é perceptível que o ator cumpre a risca tudo que está traçado no roteiro, sem arriscar inovações que possam se encaixar ao personagem, o ator consegue se destacar e deixar nítido para o público o seu crescimento em cena à medida que a peça se desenrola.

Vale ainda destacar a excepcional atuação de dois integrantes do elenco: o primeiro é Antônio Petrin no papel do fantasma. O ator trabalha seu personagem de forma tão enérgica e intensa que chega até mesmo a roubar a atenção da plateia sobre Hamlet em alguns momentos que contracena com Lacerda.

Toques humorísticos bem aplicados no contexto couberam ao ator Roney Fachini, que descontraiu o público em diversos momentos ao interpretar Polônio e um coveiro, este que já traz dentro de si uma comicidade muito bem explícita no palco do teatro Tuca. É o segundo grande destaque da montagem.

Dirigido por Ron Daniels, o espetáculo se desvia um pouco da originalidade da obra ao contar a história em um período à frente daquele em que a trama é narrada por Shakespeare, mas não deixa de preservar momentos tão valiosos como o desfecho trágico da peça que leva a plateia para junto das ações ocorridas no palco.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Intocáveis




Produção francesa dirigida por Olivier Nakache e Eric Toledano, Intocáveis comove os espectadores ao mostrar a emocionante história de amizade e motivação que surge entre duas pessoas de estilo de vida completamente distintos: Driss (papel de Omar Sy) e Philippe (François Cluzet). Enquanto o primeiro é um homem negro vindo da periferia e com precárias condições sociais, o segundo é um milionário tetraplégico que até então vivia sem muitas perspectivas de vida. 

Este cenário muda completamente a partir do momento em que Driss é apresentado a Philippe pela primeira vez, quando este procura contratar um cuidador para ele. A aproximação dos dois denota o grande destaque desta produção em relação às comédias dramáticas convencionais. A forma como Driss lida com o problema de seu companheiro deficiente é dotada de um caráter emocional e ao mesmo tempo cômico.

Phillipe cria grande empatia pela forma como é tratado por Driss. O homem simples da periferia não o enxerga como um deficiente de cadeira de rodas que mal pode se locomover, mas sim como alguém que pode aproveitar a vida da melhor forma possível. Ao contrário do comportamento de muitos, Driss não tem pena de Phillipe e encara a situação normalmente. É justamente essa visão diferente que cria tanta afeição entre os dois.

A abordagem feita sobre a história se dá de forma espetacular por mesclar drama e comédia de modo sutil, eufemístico, com uma dosagem muito maior do segundo gênero do que o primeiro, já que em toda a trama é possível surpreender-se com divertidas cenas das trapalhadas de Driss tentando cuidar de seu companheiro.

Esta produção francesa quebra o paradigma de muitas comédias dramáticas que intensificam as histórias acrescentando um grande peso ao contexto apresentado, o qual, muitas vezes, se encerra em um trágico desfecho. Intocáveis apresenta diferentes pontos de vista de se encarar os grandes problemas do dia a dia de modo a criar uma linha motivacional dotada de felicidade. A lição tirada é que o agravamento dos problemas da vida dependem do tamanho da força de vontade e do sorriso que possuímos para recebê-los.

Com um trabalho técnico simples, claro e objetivo, composto de enquadramentos e jogos de plano e contraplano básicos, esta produção toca o coração de seus espectadores pela excelente história, que se destaca à frente de todos os demais aspectos cinematográficos – sem contar o incrível trabalho de Omar Sy, que está totalmente entregue ao personagem de Driss, passando com grande veracidade a imensurável amizade nutrida por Philippe. Baseado em fatos reais.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas