domingo, 9 de novembro de 2014

Cada Dois Com Seus Pobrema


Conhecido por levar inúmeros espectadores a gargalhar nos teatros – onde ele se revela um verdadeiro astro da comédia teatral brasileira – e famoso também nas telinhas – por ter feito inúmeras novelas destacando-se, por exemplo, em Belíssima, como o açougueiro gago chamado Fladson e atualmente interpretando o espírito de um médico cirurgião em Alto Astral – o ator, autor e diretor Marcelo Médici volta para os palcos no Teatro Shopping Frei Caneca com o espetáculo Cada Dois Com Seus Pobrema, com direção de Paula Cohen.

Após dez anos da estreia de Cada Um Com Seus Pobrema, peça produzida e encenada por Médici que foi um tremendo sucesso de público, neste novo espetáculo o ator resgata seus diferentes personagens encenados nos palcos há dez anos e que conquistaram espectadores de todas as idades com seus trejeitos e discursos originais e bem elaborados.

A peça não é uma continuação de Cada Um Com Seus Pobrema, mas sim um resgate não só dos seus personagens como de grande parte de suas falas. No entanto, esta revelação só ocorre na segunda metade da peça, já que ela se inicia com dois personagens que são atores, feitos por Médici e o ator Ricardo Rathsam, que estão encenando uma divertida comédia cujo cerne é uma entrevista de um jornalista a uma atriz completamente amalucada e que vive reclusa. Enquanto Rathsam encara o repórter, Médici diverte a plateia encarando a atriz maluca e também a governanta, que trabalha para esta atriz e que de normal também parece não ter nada.

Depois de um tempo, a cena é interrompida por um conflito entre os personagens atores e a seguir o público é levado a relembrar ou conferir pela primeira vez os famosos personagens encarados por Médici em Cada Um Com Seus Pobrema, como o Mico Leão Dourado, a apresentadora de programa infantil que não se simpatiza muito com criança, Tia Penha, e o motoboy corintiano Sanderson – personagem que também teve algumas participações no seriado televisivo Vai Que Cola, exibido pelo Multishow, e que foi sucesso de audiência – entre outros.

Quem já conhece estes cômicos personagens talvez já não ache tanta graça, até mesmo pelo fato de muitas falas já serem repetidas, ainda assim é válido relembrar e conferir novamente o talento deste grande humorista que é o Marcelo Médici, que consegue envolver o público com seu humor diferenciado e cativante, com um domínio e uma naturalidade que poucos humoristas brasileiros possuem. 

Mas quem quiser conferir o espetáculo deve se apressar, pois ele permanecerá em cartaz apenas até o dia 26 de novembro e já está com quase todas as sessões esgotadas.

Por Mariana da Cruz  Mascarenhas 

domingo, 2 de novembro de 2014

Caros Ouvintes


O ano é 1968 e estamos diante de um estúdio de rádio, onde será transmitido o último capítulo de um dos folhetins mais aguardados pelo seu público. Este é o cenário da peça Caros Ouvintes, comédia dirigida por Otávio Martins e que faz referência à história das radionovelas no Brasil, relembrando este período para alguns espectadores e imergindo quem não viveu ou não se lembra desta época no mundo das novelas transmitidas apenas pelo rádio.

 No palco do Teatro MASP, os atores encaram um grupo de personagens que compõe o elenco das radionovelas de uma emissora, cada um com personalidades fortemente expressivas. Vicente (Petrônio Gontijo) é um agitado produtor dos folhetins que possui um caso com uma das atrizes, Conceição (Natallia Rodrigues).  

Vespúcio (Alexandre Slaviero) é o publicitário cujo cliente patrocina a radionovela e que também patrocinará a primeira telenovela brasileira, indicando o possível fim das radionovelas, pois é a era da chegada da TV. Um sonoplasta meio amalucado e hiperativo (Alex Gruli), um galã que já trabalha há anos na rádio, uma cantora decadente (Amanda Acosta), entre outros, também são alguns dos integrantes do elenco da radionovela.

Prestes a apresentar o último capítulo do folhetim, desta vez ao vivo, o elenco enfrenta uma série de complicações, como o sumiço de um dos seus integrantes – que é justamente o protagonista da radionovela –, as intervenções sem sentido do publicitário – que se acha o dono do elenco simplesmente pelo fato de seu cliente patrocinar a radionovela – e a grande confusão gerada nas ruas do país pelas manifestações contra a ditadura militar na época – que acabam gerando certos manifestantes próximos à rádio.

Uma história rica em cultura, sensibilização e que soube contar um período marcante para o Brasil, seja em relação à política brasileira, seja em relação a chegada da televisão, prenunciando o fim das radionovelas, e cujo drama acaba sendo atenuado em Caros Ouvintes com piadas muito bem elaboradas e inteligentes que fazem a plateia se apaixonar por esta comédia.

A deliciosa sutileza com que esta história é contada suaviza a percepção e a seriedade de algumas reflexões levantadas pela peça, como o drama dos personagens cuja carreira parece estar prestes a ser enterrada junto com o fim da radionovela, diante da chegada da TV e a perseguição pelo regime militar a muitas pessoas que mal podiam expressar suas opiniões.

Chega a causar comoção entre o público uma das cenas em que o galã é humilhado pelo publicitário por ser mais velho e não ser realmente bonito, conquistando as fãs apenas em razão de sua voz atraente, o que não mais seria possível com a chegada da TV, mostrando que apenas os mais jovens e belos sobreviveriam no mundo artístico, como é o caso de Conceição – realidade cruel que foi enfrentada por muitos atores de radionovela na época, os quais perderam seus empregos.

Além da riqueza do roteiro, todo o elenco está praticamente impecável no palco, contribuindo para um sincronismo perfeito para todas as cenas. Ainda assim vale ressaltar o papel de Alex Gruli, cujo personagem expressivo e ao mesmo tempo desengonçado conquista o carinho da plateia desde os primeiros segundos em que aparece em cena.

Ovacionada pelos espectadores no final, Caros Ouvintes causa uma mistura de sentimentos, arrancando da plateia risadas e lágrimas emocionadas, culminando em um final brilhante. O espetáculo conta com 100 minutos de duração, digno de ser apreciado mais de uma vez por quem desejar.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

domingo, 26 de outubro de 2014

Trash - A Esperança Vem do Lixo


Muito suspense e aventura estão presentes nesta nova produção Trash – A Esperança Vem do Lixo. Baseado no livro homônimo do escritor inglês Andy Muligan, o filme foi rodado no Rio de Janeiro e traz para as telonas dois dos maiores atores do cinema brasileiro da geração atual: Wagner Moura e Selton Mello.

Com direção do inglês Stephen Daldry – que dirigiu os excelentes filmes Billy Eliot e As Horas – e do roteirista inglês Richard Curtis, esta produção não é totalmente nacional, já que alguns atores estrangeiros também integram o elenco. O diretor e o roteirista foram os responsáveis por escolher o Rio de Janeiro como cenário para a trama, usando o escrito original em que o autor limita-se apenas a dizer que a história ocorre num país de Terceiro Mundo, sem especificá-lo.

Trash conta a história de três garotos – Raphael (Rickson Tevez), Gardo (Eduardo Luís) e Rato (Gabriel Weinstein) – que trabalham num lixão. Suas vidas mudam completamente quando um deles encontra uma carteira com documentos de um homem chamado José Ângelo (Wagner Moura), que eles não têm ideia de quem seja. Os meninos começam a estranhar a situação quando o investigador policial Frederico (Selton Mello) vai até o lixão oferecer uma recompensa para quem encontrar a carteira.

Porém, ao invés de entregá-la, os garotos resolvem investigar a vida de José Ângelo, com base no que encontram na carteira, pois acreditam que encontrarão revelações surpreendentes. A partir de então, inicia-se uma série de descobertas e perseguições aos meninos pelo policial Frederico, que na verdade é o vilão da história e possui ligação com pessoas corruptas, como é o caso de um poderoso político – o qual os garotos descobrem mais tarde ser conhecido de José Ângelo.

São 115 minutos de suspense e mistérios, movidos pela série de pistas apresentadas no roteiro, que levam o público a tentar desvendá-las. Entretanto, a plateia acabará percebendo algumas incoerências na trama para que tudo possa se encaixar no final.

Outro aspecto negativo são os atores estrangeiros interpretando personagens do exterior que vivem na comunidade, como um padre e uma professora de inglês, os quais poderiam muito bem ser interpretados por atores brasileiros, sem a necessidade de incorporarem personagens de fora do país, o que acaba não dando nenhum significado às cenas.

É possível perceber algumas semelhanças entre Trash e outras produções nacionais que também mostram a realidade de crianças e adolescentes nas comunidades como Cidade de Deus e até a produção internacional Quem Quer Ser um Milionário – ganhador do Oscar de melhor filme em 2010 – que traz a realidade de meninos que trabalham no lixão pelas ruas da Índia. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

domingo, 19 de outubro de 2014

Um Amor de Vizinha


Os grandes astros do cinema americano Michael Douglas e Diane Keaton estão de volta aos telões na comédia romântica Um Amor de Vizinha, com direção de Rob Reiner. A dupla interpreta, respectivamente, Oren e Leah, dois vizinhos que não se dão muito bem, mas no decorrer da trama acabam se aproximando.

Oren é um corretor de imóveis rancoroso que não se conforma com a morte da esposa e que vive fechado em seu mundo, demonstrando até mesmo receio de se envolver com as pessoas. Com seu jeito provocativo, amargurado e irônico e dotado de uma língua afiada e de um humor negro, muitos acabam se afastando dele.

Já sua vizinha Leah também é viúva, mas, ao contrário do corretor amargurado, é extremamente emotiva e quase sempre desaba em lágrimas quando se lembra de seu marido falecido. Estes personagens de personalidades tão diferentes passam a se aproximar mais quando o filho de Oren, que não vê o pai há tempos, reaparece com sua filha de dez anos, pedindo que ele cuide dela por um tempo.

Oren, que nem sabia da existência da neta e que não possui um relacionamento muito estreito com o filho, acaba aceitando a tarefa, meio que contra sua vontade. A partir de então, a garota acaba se aproximando mais de Leah que, com seu jeito dócil e carismático, se encanta pela garotinha e esta corresponde.

Enquanto isso, o corretor tenta se manter firme e insensível em relação a meiguice e doçura da menina, que deseja aproximar-se mais de seu avô. Mas, à medida que o tempo passa e Oren vai pedindo ajuda a sua vizinha para cuidar da neta, ele vai gradativamente voltando a valorizar e apreciar o verdadeiro sentido da vida.

Apesar de ser uma trama que pode prender a atenção do público pela expectativa gerada sobre o que acontecerá com Oren e sua neta no final, Um Amor de Vizinha revela-se uma comédia morna, sem quase nenhuma surpresa.

Trata-se, portanto, de uma história bem simples e linear, que chega a arrancar algumas poucas risadas do público e com um roteiro bem aquém para o nível de atuação dos dois protagonistas de extremo peso para o cinema hollywoodiano – Diane Keaton e Michael Douglas. Inclusive eles já foram premiados com o Oscar de melhor atriz e ator e também já participaram dos maiores clássicos de imenso sucesso do cinema norte-americano, como Poderoso Chefão (caso de Diane) e Instinto Selvagem (caso de Michael Douglas).

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

domingo, 21 de setembro de 2014

Cazuza - Pro dia nascer feliz


“Exagerado / Jogado aos teus pés / Eu sou mesmo exagerado / Adoro um amor inventado”: seja no chuveiro, na cozinha, no quarto, não importa onde, quem nunca se pegou cantando esta letra em algum lugar? E não somente esta, mas muitas outras como “Brasil / Mostra tua cara / Quero ver quem paga / Pra gente ficar assim” ou ainda “A tua piscina está cheia de ratos / Tuas ideias não correspondem aos fatos”. Certamente você deve ter acabado de ler estas letras já com o ritmo da música em sua cabeça, ou ainda cantando-as mesmo. Este é mais um sinal de que elas se eternizaram na mente e nos corações de milhões de brasileiros, assim como seu autor: o grande compositor e cantor Cazuza.

Falecido em julho de 1990, aos 32 anos de idade, vítima da AIDS, Cazuza influenciou gerações e continua influenciando até hoje não só com a riqueza de suas letras como também pelo jeito rebelde e polêmico de ser. Considerado um dos maiores compositores da música brasileira, ele conquistou inúmeros fãs, sendo que muitos surgiram e continuam surgindo mesmo após sua morte, diante do legado deixado por ele não só para a música como para a cultura de uma forma geral, já que, além de cantor e compositor, Cazuza foi poeta e escritor.

Por isso, mesmo após sua morte, suas músicas continuam sendo tocadas repetidas vezes e sua biografia retratada em livros, filme e agora também em peça teatral. Desde o dia 18 de julho de 2014, o palco do Teatro Procópio Ferreira recebe o musical Cazuza – Pro dia nascer feliz.

Com 170 minutos de duração, o espetáculo narra a trajetória de Cazuza – o papel costuma ser apresentado pelo ator Emílio Dantas, mas neste dia (6/9) foi apresentado pelo ator Bruno Narchi, que faz o protagonista em algumas sessões – desde o momento em que seu talento para a música começa a se revelar na formação da banda Barão Vermelho, passando pelo affair com Ney Matogrosso (Fabiano Medeiros), seu grande estouro como artista solo, até o momento em que ele descobre ser portador do vírus da AIDS e morre algum tempo depois.

Durante o espetáculo, a personagem Lucinha Araújo (Susana Ribeiro), mãe de Cazuza, interage diretamente com o público e os demais personagens ao mesmo tempo, narrando o que acontece com o filho, enquanto as cenas se desenrolam, e contracenando com o restante do elenco.

O musical leva a plateia a viajar no tempo e a reviver -  ou conhecer pela primeira vez  - as diferentes fases da vida do protagonista, deixando-se levar pelas alegrias, rebeldias e tristezas sofridas por Cazuza. Prepare-se para alguns momentos do espetáculo que prometem fortes emoções, principalmente quando o artista começa a sofrer as complicações patológicas da AIDS.

Dirigido por João Fonseca, o espetáculo não investe muito em cenário, mas traz um elenco de peso que faz um verdadeiro show no palco. Não há como não elogiar a atuação de Bruno Narchi, intérprete de Cazuza, que parece trazer o verdadeiro artista para o Teatro Procópio Ferreira. Algumas cenas chegam a ser simplesmente arrepiantes pela similaridade do ator com o verdadeiro Cazuza, tanto no figurino como na atuação.

Do começo ao fim da peça, Narchi faz um trabalho cênico espetacular e supera seus limites nas atuações mais difíceis, que exigem todo o cuidado para não se extrapolarem, e não se extrapolam, como o gradativo desgaste físico de Cazuza, a medida que a AIDS toma conta dele. Narchi arranca lágrimas dos espectadores, fazendo-os sofrer junto com seu personagem e o de seus pais, que permaneceram ao lado do filho até o fim.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

domingo, 7 de setembro de 2014

Se Eu Fosse Você, o Musical


Um casal (Helena e Claudio) está passando por crises em seu casamento e, depois de diversas discussões, resolve se separar. A filha deles (Bia), ainda adolescente, quer contar para seus pais que está grávida do namorado, mas não consegue encontrar a forma adequada de dar a notícia, temendo que o pai, principalmente, tenha um ataque de nervos. A situação só piora quando algo completamente inimaginável acontece com Helena e Claudio: eles trocam de corpos para desespero deles e de sua filha que, sem saber o que acontece, estranha o comportamento diferente do pai, mais afeminado, e da mãe, mais rígida.

A história acima lhe pareceu familiar? Pois ela esteve nos telões e atraiu milhões de espectadores no Brasil. Trata-se das comédias brasileiras Se Eu Fosse Você (2006) e Se eu Fosse Você 2 (2008) – somente esta última atraiu mais de 6 milhões de pessoas para o cinema, em razão do sucesso do primeiro filme, e entrou para a lista das dez maiores bilheterias de produções brasileiras na história do cinema, tendo arrecadado cerca de 50 milhões de reais.

A trama acabou até mesmo por revolucionar a comédia cinematográfica brasileira, que até então não vinha atraindo grandes públicos e, a partir de Se Eu Fosse Você, começou a lotar as salas de cinemas com outras comédias posteriores, também de grande sucesso. Agora, a divertida história do casal que troca de corpos ganha uma versão para os palcos em formato de musical, que está em cartaz no Teatro Cetip, em São Paulo.

Com direção de Alonso Barros, Se Eu Fosse Você, o Musical traz uma mescla das aventuras de Helena e Claudio – personagens que, na peça, são vividos pelos atores Claudia Netto e Nelson Freitas – nos dois filmes dirigidos por Daniel Filho.

Composto por um elenco formado por 22 atores, o musical consegue arrancar boas risadas da plateia, no entanto os intérpretes limitam-se a cumprir meramente o roteiro sem arriscar muito nas atuações, contribuindo assim para criar uma sequência cênica bem linear.

Certamente quem assistiu aos filmes verá que as atuações do elenco nos telões, principalmente de Tony Ramos e Glória Pires, intérpretes de Claudio e Helena, foram muito mais envolventes do que a forma como a história é apresentada no palco.

No entanto, vale ressaltar a atuação de Nelson Freitas, um dos principais responsáveis por descontrair e provocar risos na plateia, roubando a atenção de grande parte do elenco, principalmente quando interpreta de modo bem desenvolto e hilário um Cláudio afeminado, que na verdade é a Helena em seu corpo. Destacam-se também diversas músicas de Rita Lee que compõem o repertório da peça.

Vale a pena para quem estiver unicamente a fim de descontrair e rir um pouco! O espetáculo estreou em 14 de agosto de 2014 e ficará em cartaz até 14 de setembro de 2014. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas 

domingo, 17 de agosto de 2014

Rei Lear


Iniciantes, amadores ou profissionais: encenar uma peça de William Shakespeare não se revela uma tarefa fácil para qualquer ator, especialmente em razão dos diálogos densos e dos acontecimentos trágicos característicos das obras deste que é considerado um dos maiores dramaturgos da história. E, se encarar um de seus personagens já é um tremendo desafio, imagina encarar vários deles ao mesmo tempo, transformando os textos shakespearianos em nada mais nada menos que um monólogo.

Pois é justamente assim que o famoso conto de Rei Lear, escrito por Shakespeare, nos é apresentado no palco do Teatro Eva Herz, que tem como cenário apenas uma cadeira em um fundo preto ocupado por um único ator: o grandiosíssimo Juca de Oliveira que, com 79 anos, encarou tal desafio de forma excepcional, sendo ovacionado pela plateia.

Dirigido por Elias Andreato, o monólogo Rei Lear traz a história de um rei octogenário tomado pela loucura, após a grande frustração sofrida ao deixar seu reinado para duas de suas três filhas, Goneril e Reagan, não deixando nada para a caçula, Cordélia – simplesmente por ela não ter adulado o pai como suas irmãs, dizendo amá-lo na medida certa, nem mais e nem menos – e ser traído e expulso justamente pelas duas filhas mais velhas, quando ele, já idoso e cansado, busca se aconchegar nos lares delas.

Tomado pelo ódio e pela tristeza, ele começa a caminhar sem rumo, na companhia de seu bobo da corte, e então passa a ter surtos de devaneios dada a tamanha decepção que lhe assola. A fidelidade à obra escrita por Shakespeare termina aí, já que Juca resolve dar um novo fim à história, que no monólogo escapa do final acentuadamente trágico destinado a cada um dos personagens, como é de praxe nas obras shakespearianas.

Pode até ser que o novo final não agrade muito os mais fascinados pelos textos do dramaturgo inglês, mas o fato é que, durante os 60 minutos de peça, Juca conduziu o texto de modo fantástico, dando a devida dramatização a cada palavra dita e denotando perfeitamente bem as diferenças entre cada personagem que ele interpretou, permitindo que o público os identificasse e os distinguisse claramente.

Sem qualquer figurino e numa postura bem à vontade no palco, Juca leva os espectadores para a trama apenas com sua atuação e entonação verbal, chegando até a emocionar a plateia. Isso ocorre principalmente nos momentos finais da peça, trazendo a história de Shakespeare para o mundo atual e despertando uma reflexão sobre quantos pais, após passarem grande parte de suas vidas se doando inteiramente aos filhos, são humilhados e esquecidos em asilos pelos seus próprios herdeiros, assim que estes crescem.  Trata-se de um excelente monólogo para apreciar, se encantar e refletir.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas