segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Gravidade


Poucas palavras e muita respiração ofegante. É praticamente esta a sonoridade presente em Gravidade, produção de apenas 90 minutos que consegue paralisar os olhos dos espectadores em função de um suspense muito bem trabalhado cujo cenário é o espaço sideral.

A trama envolve a experiência traumática vivida pelos astronautas Ryan Stone (Sandra Bullock), que é médica, e Kowaslki (George Clooney) que, enquanto tentam consertar um ônibus espacial pelo lado de fora, são notificados pela Nasa que pedaços de satélite estão vindo em suas direções.

Segundos após o alerta, o ônibus é destruído pelos destroços de satélites e, de todos os tripulantes presentes, apenas o experiente Kowaslki e Ryan, novata em conhecimentos espaciais, sobrevivem ao acidente e ficam dispersos pelo espaço, sem nenhum contato com a Terra. Para desespero ainda maior de Stone, ela acaba se distanciando de seu único companheiro sobrevivente e, com apenas as instruções dadas por ele – já que ela quase não possui noção do que fazer no espaço, especialmente em tal situação – ela precisa encontrar outra estação espacial para entrar numa cápsula de fuga e se deslocar para a Terra, momento em que o suspense toma conta dos telões, pois se inicia uma tentativa desesperada de Stone de conseguir uma cápsula para tal objetivo.

Praticamente todo o filme é preenchido pelos diversos obstáculos que ela enfrenta, como a dificuldade de respirar, os pedaços de satélites e meteoritos que ela encontra em seu caminho e o próprio desconhecimento espacial que atrapalha e muito seu possível retorno ao planeta, tornando a falta de gravidade apenas um mero incômodo, se comparado aos outros problemas.

Uma sucessão de cenas gravadas em plano fechado confere ao espectador o mesmo ponto de vista do personagem que, dentro de sua roupa de astronauta, mal consegue enxergar o que está ao redor e mantém uma respiração ofegante, em razão da pouca quantidade de oxigênio disponível. A quase inexistência de planos abertos, que propiciam a totalidade visual da cena – com algumas exceções como no momento em que os personagens se veem diante do planeta Terra – ajuda a tirar o ar não só dos personagens como do público, que também não consegue ter a visão completa sobre o que acontecerá com a Dra. Stone e qual será seu desfecho.

A produção vem arrancando aplausos de público e de crítica e já é considerada uma das favoritas ao Oscar 2014. O filme vem ganhando tamanho destaque principalmente por trabalhar os recursos cinematográficos de modo a produzir a sensação mais realística possível entre o homem e o espaço. Trata-se praticamente de 90 minutos de suspense congelante, resultado dos efeitos gerados pelos inúmeros closers e primeiros planos que procuram focar o rosto apavorado de Stone.   

Há quem já tenha correlacionado esta produção com a grandiosa 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, apesar de ambas as tramas terem apenas em comum o aspecto cenográfico do homem no espaço, já que Kubrick faz um espetacular trabalho artístico voltado à evolução humana, enquanto que Alfonso Cuarón, diretor de Gravidade, ressalta a relação homem /espaço sideral.

De qualquer forma, Gravidade é de arrancar aplausos, mas pode surpreender na noite do Oscar, já que o filme não preenche todos os requisitos cinematográficos que são considerados na avaliação do prêmio Melhor Filme, por exemplo, por focar-se principalmente apenas nos efeitos especiais e no trabalho de câmeras e planos sequenciais que denotam o suspense ao filme, sem ser preenchido por um contexto histórico.

A trama ainda concorre ao Globo de Ouro em categorias como Melhor Filme, Melhor Atriz (Sandra Bullock) e Melhor Diretor (Alfonso Cuarón). 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sábado, 21 de dezembro de 2013

Crazy for you


Ao som de muito sapateado e, claro, de músicas tocadas por uma orquestra, que não pode faltar num musical, o espetáculo Crazy for you é uma adaptação da Broadway que estreou em Nova York no ano de 1992. Este foi um grande marco na história dos musicais por exaltar a genialidade artística norte-americana tão famosa por suas coreografias sincronizadas, num ritmo obedecido com extrema perfeição, acompanhado do brilho contagiante dos atores e de cenas típicas presentes nos filmes americanos que fizeram história, por exemplo, com o astro da dança Fred Astaire.

            Com adaptação de Miguel Falabella para a versão brasileira que acontece no teatro do Complexo Ohtake Cultural, Crazy for You destaca um tortuoso e complicado romance que surge entre Bobby Child (Jarbas Homem de Mello) – um playboy nova-iorquino cujo sonho é se tornar um astro dos musicais, porém seu desejo é totalmente repreendido por sua mãe, que espera que o filho se interesse pelos negócios da família – e Polly (Cláudia Raia), uma rude interiorana que vive na pacata e quase deserta cidade de Pedra Morta.

            Em um determinado dia, Bobby é enviado por sua mãe para Pedra Morta com o objetivo de cobrar uma dívida do dono de um teatro local que está falido e precisará ser fechado. No entanto, ao chegar lá Bobby acaba se apaixonando por Polly, a filha do proprietário do teatro, e resolve então “ressuscitar” o estabelecimento artístico montando um espetáculo juntamente com o povo da região e algumas bailarinas de um famoso diretor artístico que reside em Nova York. Elas vão até a cidade pacata exclusivamente para ajudar Bob. Mas uma série de confusões e conflitos acaba dificultando a aproximação de Bob de sua amada, que com seu gênio embrutecido não demonstra, a princípio, o menor afeto por ele.

            A história simples e praticamente linear do espetáculo é totalmente preenchida por fabulosas apresentações artísticas bem longas, cujas músicas ganham um prolongamento apenas instrumental ao seu final para estender o tempo das coreografias do elenco, que neste momento aproveita para dar um show no palco. Apesar do sincronismo nem sempre ser seguido com extrema perfeição, a dança tão desenvolta e corporal, cujas variações arrancam aplausos e ovações da plateia em vários momentos, se enriquece sonoramente com os barulhos rítmicos produzidos pela brincadeira sonora feita pelos atores com os próprios objetos de cena.

            Sem contar ainda o espetáculo de sapateado que envolve Jarbas e Cláudia Raia e complementa a peça no decorrer de sua história, fazendo alusão a uma das cenas mais memoráveis para o gênero musical, envolvendo a dança de sapateado entre Fred Astaire e Ginger Rogers no filme Vamos Dançar, cuja música, “They Can’t Take Away From Me”, também pode ser ouvida neste musical na voz de Cláudia Raia. Crazy for you é um delírio principalmente para os ouvidos dos amantes de musicais, por trazer composições fantásticas de George Gershwin e letras de Ira Gershwin, que se destacaram na Broadway.

            Vale ressaltar o papel de Jarbas Homem de Mello, cuja desenvoltura e extrema agilidade cênica exigidas para o seu cômico papel arrancam altas risadas dos espectadores, e ainda vale destacar um diferencial trabalhado neste espetáculo pelo diretor José Possi Neto, que confere identidade para cada um dos figurantes que compõe o elenco. Algo inclusive que deveria ser mais aplicado nos demais espetáculos musicais, os quais, por exigirem um numeroso elenco, acabam ofuscando o papel de muitos atores que se restringem apenas a ser figurantes. Porém, em Crazy for you, cada personagem tem uma personalidade diferente e não passa despercebido pela plateia, já que cada um tem o seu momento, sem sair das imposições de seu papel.

Com 150 minutos de duração, é perceptível que o musical segue à risca a versão original em todos os momentos, com cenografia e figurino muito bem trabalhados e também pelo estilo da coreografia que obedece a original criada por Susan Stroman.  

O musical encerra a temporada deste ano no dia 22 de dezembro e volta em cartaz no dia 9 de janeiro de 2014 no Complexo Ohtake Cultural. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Grupo Tapa comemora 30 anos e oferece Festival “Última Chance” com grandes apresentações teatrais


Peça Berro 

O Grupo Tapa, um dos mais conceituados grupos de teatro brasileiro, comemora 30 anos de existência em 2013 e quem sai ganhando é o público, que poderá acompanhar diversas obras cênicas escritas por grandes dramaturgos, com destaque para Tennessee Williams – pseudônimo de Thomas Lanier Willians, estadunidense que ganhou diversos prêmios, incluindo o Pulitzer – encenada pelo elenco. É o Festival “Última Chance”, que teve início no dia 2 de novembro e se estenderá até o dia 21 de dezembro no Teatro de Arena Eugênio Kusnet. 

O Festival é a última oportunidade de conferir ainda neste ano algumas novidades cênicas e outras interpretações já conhecidas que foram apresentadas pelo Grupo e são trazidas novamente aos palcos.
Até o dia 21 de dezembro, o Grupo trará diferentes apresentações que ocorrerão sempre aos sábados às 18h. Entre os espetáculos que já passaram pelo Teatro de Arena destaca-se Alguns Blues do Tennessee, composta por três histórias curtas de Tenessee Willians: O Quarto Escuro, Verão no Lago e A Dama da Noção Antipiolho. Todas refletindo medos e tragédias humanas dotadas de realismo tanto pelo estilo do autor, quanto pela atuação vívida do elenco, que cria uma tensão gradativa na plateia à medida que os dramas se intensificam dentro de cada personagem e suas respectivas histórias.

O Festival trará ainda as peças As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena, que narra a história de dois garotos que acabam gerando grandes confusões para encobrir seus romances proibidos com duas garotas; Senhorita Júlia, de August Strindberg, que aborda um embate entre uma aristocrata e seu criado; Berro, de Tennessee Willians, que conta os desafios a serem enfrentados por dois irmãos atores, que são abandonados pelos integrantes de sua companhia teatral e, ao encenarem sozinhos uma peça sobre dois irmãos, são totalmente repudiados pela plateia, e As Viúvas, de Arthur de Azevedo, que traz três comédias (Amor por Anexins, Uma Consulta e O Oráculo) sobre os planos de três viúvas para conquistar um marido.

Criado no Rio de Janeiro em 1979, o Grupo Tapa tornou-se cada vez mais conhecido não só entre o público mais restrito de teatro como entre a população em geral e, conforme crescia imensamente nos palcos através de suas encenações dramáticas, foi ganhando um respeito cada vez maior da crítica, que passou a aclamá-lo frequentemente.

O Grupo destacou-se principalmente por seu estilo único e identificável de fazer teatro, optando sempre por imergir no mundo das obras de grandes dramaturgos nacionais e internacionais, cujas histórias possuem uma densidade extrema e cativante ao mesmo tempo. O enriquecimento intelectual e a complexidade emotiva, social e histórica presentes em cada obra destes renomados escritores, tão cativantes e transformadores no mundo cultural, tornam-se um desafio para todo aquele que decide personificá-los no palco, justamente por se tratar de um material tão influenciador e que necessita de tamanha competência para sua teatralização.

E o Grupo Tapa, nestes 30 anos de existência, conseguiu e vem conseguindo dar vida nos palcos a todas as histórias destes escritores, por meio de uma atuação envolvente de toda sua competente equipe e também do excelente trabalho do seu diretor artístico Eduardo Tolentino de Araújo. Trata-se de um trabalho muito mais ligado à atuação do que à cenografia, já que o Grupo é conhecido por suas apresentações em cenários simples, onde o complemento maior está nos atores, os quais, desprovidos de qualquer elemento externo, já se mostram capazes transmitir toda a genialidade das obras, baseando-se para isto apenas neles mesmos.

Vale a pena conferir o Festival e entender o teatro em sua essência e originalidade, com análises profundas e reflexivas sobre a sociedade em que vivemos.

Programação:
Senhorita Júlia
Dia 30/11 às 18h

Berro
Dias 7/12 às 18h e 8/12 às 19h

As desgraças de uma criança
Dia 14/12 às 18h

As viúvas de Artur de Azevedo

Dia 21/12 às 18h

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

domingo, 10 de novembro de 2013

Il Volo


Já pensou em assistir a um espetáculo onde é possível ouvir simultaneamente todo o classicismo presente na ópera, o modernismo da música pop e a sutileza do canto romântico? Pois saiba que essa mesclagem já é possível e vem fazendo sucesso por todo o mundo, atraindo públicos de diferentes gostos musicais que se unem em prol de uma musicalidade única e contagiante para os ouvidos de todas as faixas etárias. Como é o caso do trabalho produzido pelo trio Il Volo, grupo formado por três jovens tenores italianos: Gianluca Ginbole Castorani (18), Piero Barone Ognibene (20) e Ignazio Boschetto (21). 

Esses três rapazes despertaram seu potencial para a música ainda na infância e decolaram de vez nesta carreira após participarem de uma competição musical da TV Italiana RAI, em 2009. Desde então vêm se tornando conhecidos por onde passam e conquistando inúmeros fãs pelo planeta. Depois de já se apresentarem no Brasil em 2012, eles voltam para cá no palco do Teatro Bradesco, em São Paulo, para o lançamento do álbum We Are Love – o primeiro CD Il Volo foi lançado em 2010 e chegou a ocupar a 10a posição na Bilboard 200 e a primeira no ranking de álbuns clássicos.

Mesmo quem não for um apreciador de primeira instância de música clássica certamente se encantará com a performance vocal destes três jovens, cujos timbres arrepiam até as paredes do teatro. Afinal, Il Volo não se destaca por cantar ópera em seu sentido mais tradicional, e sim por fazer justamente o oposto ao trazer um classicismo dotado de um modernismo oriundo do conceito de ópera pop.

Entre as canções que se destacam no repertório do espetáculo estão aquelas endeusadas pelos apreciadores da boa música, como Memory, Smile, Granada, Il Mondo e um esplêndido encerramento que levou a plateia a cantar em coro a aclamada Sole Mio. Considerado um tenor spinto – que alcança o tenor lírico com facilidade, ou seja, um timbre encantador semelhante ao do violoncelo – Piero Barone é quem mais se destaca do trio.


Trata-se de um concerto destinado a cativar públicos de todas as idades justamente por quebrar o conceito mais classicista da ópera e modernizá-lo, para assim convidar um público mais jovem a imergir neste encantador mundo da música clássica. Il Volo fará mais três apresentações nos dias 11, 12 e 13 de novembro no Teatro Bradesco. Imperdível.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Três Dias de Chuva


Quem já não se frustrou ou se irritou com uma situação aparentemente desapontadora e, após investigá-la a fundo, descobre revelações surpreendentes, indicando que nada é o que parece ser? Esta intriga é um dos cernes da peça Três Dias de Chuva, que narra a história de dois irmãos que se reencontram para a partilha de bens deixada por seus falecidos pais e vão junto com seu amigo de infância Pip – o filho do falecido sócio do pai deles – para a leitura do testamento, a qual lhes reserva grandes surpresas.

Dividido em dois atos, o espetáculo mostra em seu primeiro momento, no ano de 1995, a atriz Carolina Ferraz* interpretando a personagem Anna, que reencontra seu irmão Walker (Otávio Martins), após este sumir por um ano logo que seu pai morreu. Passado algum tempo de peça, surge Pip (Petrônio Gontijo), que terá altas discussões com Walker depois dos mistérios revelados na leitura do testamento. Já no segundo ato, que se passa em 1960, Carolina, Martins e Gontijo aparecem no palco encarando os pais de Walker, Anna e Pip e grandes segredos escondidos por eles surpreenderão a plateia.

Escrito por Richard Greenberg, um dos grandes dramaturgos norte-americanos, e com direção de Jô Soares, o espetáculo é composto por um roteiro rico de diálogos afiados e que trabalham a mente do público convidando-o a fazer uma análise reflexiva sobre o choque de gerações. A encenação de duas épocas distintas, e que ao mesmo tempo se mostram entrelaçadas pela ligação entre os personagens do espetáculo, proporciona uma excelente conexão dos espectadores com a trama, já que eles precisarão estar o tempo todo atentos a tudo que se passa, principalmente no segundo ato, para fazerem as devidas associações entre os papeis cênicos e descobrirem o que realmente está por trás dos pais de Walker, Anna e Pip que revelam, inclusive, terem vivido um triângulo amoroso.

Por focar nesta passagem de tempo, mostrando as diferenças comportamentais e sociais em cada época representada no palco, a peça tem como principal atributo a transformação dos atores em cena de forma desafiadora, já que eles precisam denotar claramente essa mudança, não somente através do comportamento, como também de uma linguagem tão rica quanto a empregada por Greenberg. Neste quesito, o ator Otávio Martins é quem mais se destaca, cumprindo perfeitamente sua função ao incorporar, no primeiro ato, um Walker ainda extremamente perturbado, não somente com a morte do pai, mas também com o complicado relacionamento tido com ele quando vivo. Já no segundo ato, ele encara um papel extremamente oposto ao seu primeiro, por interpretar o pai introvertido e gago de Walker.

 Em relação aos demais atores, essa transformação se mostra perceptível de modo bem menos atenuante, chegando a ser quase linear no caso de Gontijo, algo que foge um pouco da obra de Greenberg, que propõe uma exteriorização das diferenças de geração.

Além disso, o linguajar cênico do elenco poderia identificar melhor as diferenças de época, mas acaba mantendo grandes similaridades entre os dois atos. Todavia, no geral, a genialidade do roteiro continua a se fazer presente no palco e não deixa de prender a atenção do público devido a sua excelente história.

*A partir de 11 de Outubro, a atriz Carolina Ferraz passou a ser substituída pela Adriane Galisteu.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Elysium


O ano é 2154. O planeta Terra está fadado à tragédia total, constituindo um lugar sem esperança, cercado de doenças e sujeira por todos os lados, sendo habitado apenas pela população mais pobre que sobrevive à base de migalhas e, à procura desesperada por sustento, muitos acabam entrando para o mundo da criminalidade.

Enquanto a maioria morre vítima da fome e de doenças num planeta de condições precárias, outros desfrutam de uma vida luxuosa, cercada de todo o conforto possível e ainda usufruindo de uma tecnologia super avançada para se curar de todas as doenças como num passe de mágica.  Esse paraíso é Elysium, uma estação espacial habitada pelos ricos que abandonaram a Terra para viverem longe de sua precariedade e dos pobres que nela habitam.

Este é o cenário do filme Elysium, que estreou em primeiro lugar nos EUA faturando R$ 72 milhões apenas no primeiro fim de semana. No Brasil a produção chegou aos telões em 21 de setembro de 2013. Com concepções extremamente futuristas, a trama mostra um universo cercado de máquinas – incluindo robôs parecidos com humanos – capazes de curar as mais agravantes doenças, como o câncer, num piscar de olhos, através apenas do simples apertar de um botão.

Enquanto os habitantes de Elysium podem desfrutar de robôs para servi-los a todo o momento, muitos moradores da Terra são expostos a incontáveis horas de trabalho em fábricas para produzirem mais robôs que serão enviados à estação espacial – como é o caso do protagonista Max (Matt Damon) que, após sair da prisão, vai trabalhar na produção robótica. Desde pequeno ele sempre teve o sonho de viver em Elysium e considera uma injustiça que apenas os ricos possam ter acesso ao lugar, deixando os pobres à margem da doença e miséria. Um dia, após ser exposto a quantidades fatais de radiação em seu trabalho e percebendo que por consequência disso lhe restariam poucos dias de vida, Max tentará a todo o custo chegar a Elysium, pois lá está sua única chance de se curar.

Para isso ele contará com a ajuda de um hacker revolucionário (Wagner Moura) para chegar ao seu destino, mas, em troca do favor, terá de invadir a mente de um ricaço que está na Terra e sabe as informações para entrar em Elysium. O que eles não contarão é com a intervenção de um psicótico mercenário (Sharlto Copley), que vive na Terra e trabalha para os comandantes da estação espacial, e inicialmente fará de tudo para impedir que o plano de Max dê certo.

Estreando no cinema hollywoodiano, o ator Wagner Moura demonstra estar bem à vontade em seu papel, tanto na atuação corporal, quanto na expressão vocal – o ator fala muito bem o inglês, apesar de não conferir em seus diálogos maior suavidade e continuidade rápida entre as palavras, típica da fala dos nativos, e conferindo um jeito mais brasileiro às suas conversas.  Porém este detalhe acaba sendo ofuscado pela tamanha desenvoltura interpretativa de Moura, que cresce gradativamente ao desenrolar do filme à medida que sua participação se torna maior.

A característica tão contundente de seu personagem permite que Moura possa exteriorizar e demonstrar com mais facilidade diante das câmeras seu talento interpretativo por meio corporal, fazendo com que ele não seja apenas um mero coadjuvante, mas ganhe destaque em grande parte da trama, inclusive desviando a atenção do público ao protagonista para si – não que Damon também não esteja excelente em seu papel, mas como se limita a encarar as atuações que o roteiro exige de seu personagem – até porque trata-se de um papel de expressões mais contidas e interiorizadas – a  atuação de Moura se torna mais visível.

A atriz brasileira Alice Braga, que já atuou em diversos outros filmes estrangeiros, também marca presença em Elysium como a amiga de Max que também pretende embarcar para a estação espacial a fim de curar sua filha, vítima de uma doença grave.

Outro destaque no quesito expressão cênica vai para o ator Sharlto Copley no papel do mercenário. Seus trejeitos e total vivacidade conferidos ao papel prendem a atenção do público, já que ele interpreta um dos principais antagonistas da trama que a todo o momento indica estar prestes a destruir o protagonista em conflitos cheios de ação e suspense.

Todavia, mesmo com tamanho elenco, o roteiro frustrará principalmente os telespectadores que forem assistir ao filme em busca de conteúdo histórico – algo que deixa a desejar, já que quase toda a trama é preenchida por efeitos visuais e sonoros e muitos combates, os quais acabam se tornando vazios diante da pobreza de conteúdo.

A produção tem direção de Neill Blomkamp, que se destacou no mercado cinematográfico depois de seu longa Distrito 9, indicado a 4 Oscar, incluindo as categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro. Atores de diversas nacionalidades compõem o elenco da trama, sendo talvez até mesmo uma sacada do diretor para sua mensagem crítica à desigualdade social por meio do filme.

Por Mariana da Cruz Mascarenhas



domingo, 1 de setembro de 2013

Tim Maia - Vale Tudo, o Musical


Aplaudido por mais de 320 mil pessoas no Rio e em São Paulo, o espetáculo Tim Maia – Vale Tudo, o Musical faz as últimas apresentações no Teatro Procópio Ferreira, na cidade paulistana. Baseado no livro de Nelson Motta, a trama narra alguns trechos marcantes da vida de Sebastião Rodrigues Maia, o famoso Tim Maia, um dos cantores e compositores de maior influência nacional, acompanhados de seus grandes sucessos musicais que repercutiram e continuam a repercutir entre gerações, mesmo após uma década e meia de seu falecimento.

Nesta temporada que retornou a São Paulo, o ator Danilo Moura é quem se destaca no papel do protagonista do espetáculo, que também já contou, em outras temporadas, com a participação de Tiago Abravanel – neto do apresentador Silvio Santos. Tiago se consagrou como Tim Maia e foi muito aclamado por público e crítica.

Mas Danilo Moura também se mostra incrível em corpo e voz ao atuar em cenas de memoráveis momentos vividos por Tim, como a entrada na adolescência, as inúmeras dificuldades encontradas para fazer sua carreira decolar, o surgimento da primeira banda, Os Sputniks, composta por ele e o rei Roberto Carlos, os encontros com Elis Regina, Jorge Ben e Erasmo Carlos e também seu intenso envolvimento com as drogas e o álcool que acabaram por destruir sua saúde e prejudicar gravemente a carreira artística. Devido a isso, ao final do musical, aqueles que viveram a época ou até mesmo passaram por tal situação também puderam relembrar o quanto que os fãs de Tim Maia dependiam da sorte quando este, ao final de sua carreira e vida, deixou de comparecer a inúmeros shows pelo péssimo estado de saúde em que se encontrava, com o organismo deteriorado pelos entorpecentes.

Sob uma abordagem narrativa, a musicalidade do espetáculo se revela apenas nos momentos em que são cantados os principais sucessos musicais do protagonista da história. E mesmo quem não é tão fã de carteirinha de Tim acaba se envolvendo com o convidativo clima cênico gerado no palco, além, é claro, do ritmo atraente contido nas músicas do cantor que viraram sucesso como “Vale Tudo”, “Chocolate”, “Azul da Cor do Mar”, “Gostava Tanto de Você”, “Você”, entre outros...

Logo de início, o primeiro número musical de Tim Maia – Vale Tudo, o Musical já cria forte empatia entre os espectadores nos primeiros minutos de peça, ao trazer o último show de Tim Maia – que não aconteceu devido ao infarto que ele sofreu no palco, resultando em sua morte. A cena se passa de forma tão vívida e enérgica que contraria a tendência convencional de alguns espetáculos de trabalharem gradativamente o crescimento cênico, o que acaba criando um envolvimento na plateia apenas com o decorrer da trama.

Graças ao excelente trabalho vocal do elenco, coreografias bem delineadas e uma boa dose de humor aplicada em quase todos os diálogos entre os personagens e também no estereótipo exagerado de muitos deles – além é claro da própria repercussão deixada por Tim, que por si só prende a atenção do público – que o espetáculo mantém o mesmo ritmo atraente do começo ao fim, com exceção de pequenas oscilações ocorridas no final, o qual se torna um pouco extensivo, em razão até mesmo da abordagem narrativa que contribui para prolongar o tempo da trama. No entanto, nada que não culmine para um grande final ovacionado pela plateia.

A desenvoltura corporal de Moura e, principalmente, a rouquidão de sua voz carregada e grave contribui para reviver a voz do grande artista que introduziu o estilo soul na música popular brasileira. Faltou apenas sua marca registrada, o característico bigode presente ao longo de sua vida, mas o ator soube trabalhar muito bem o jeito carismático e ao mesmo tempo exigente de Tim Maia, contribuindo para viver intensamente o personagem.

O ator Reiner Tenente também se destaca ao conferir jeitos e trejeitos na incorporação do ator Roberto Carlos e outros personagens, acompanhados de uma linguagem corporal que por si só leva a plateia a dar altas risadas, destaque este também marcante na atuação e impressionante voz de Pedro Lima, que interpreta, entre outros papéis, o pai de Tim Maia.


Dirigido por João Fonseca, Tim Maia – Vale Tudo, o Musical permanece em cartaz até 8 de setembro e certamente é um espetáculo emocionante não só para os fãs deste cantor, como até mesmo para quem não acompanhou muito sua carreira, mas acaba se encantando, dada a vivacidade trabalhada pelo musical do começo ao fim. 

Por Mariana da Cruz Mascarenhas